Tabula Rasa

Projecto de remodelação da Avenida dos Aliados
O célebre projecto de remodelação da
Avenida dos Aliados tem sido comentado um pouco por toda a comunidade de
blogs relacionada com a cidade do Porto. Da mesma forma, alguma da imprensa também deu o seu destaque a esta questão. Contudo, o que notamos, é que através da leitura da imprensa, o projecto de Siza e Souto Moura é tido como consensual e aplaudido, isento de polémicas, como uma espécie de arquitectura total onde todos se irão rever, aplaudir e, no final, enternecer.
Essa ideia de grande aceitação acrítica já não corresponde, por outro lado, àquilo que se tem escrito e editado na
blogosfera, a nossa caixa de correio, por exemplo, tem recebido bastantes comentários críticos, lamentando a execução deste projecto eivado de
sizentismo e sobretudo lamentando o espírito de
tabula rasa com que se pretende acabar com a velha calçada e os seus temas.
Sem querer pôr em causa a competência dos referidos arquitectos, nomes aliás que são sobretudo motivo de orgulho e prestígio da cidade, penso que a destruição da calçada é um erro, não porque a calçada seja um expoente artístico qualquer, ou por ser uma relíquia arqueológica a preservar, mas simplesmente porque essa calçada faz parte do património e do conceito que temos da cidade, faz parte da memória visual daquele espaço, faz parte duma herança que, sejamos claros, não é nenhum fardo, nem tampouco será incompatível com um qualquer projecto de remodelação, tudo se poderia reduzir, digamos, a um pouco de boa-vontade e talvez humildade dos autores do projecto.
Ao mesmo tempo, e talvez menos comentado, há outro aspecto do projecto de remodelação que merece ser referido, a reorientação da estátua equestre de
D. Pedro IV. O novo projecto prevê uma reviravolta ao monumento de 180º, isto é, a tradicional orientação NS, direccionada para o rio, será abolida. A ideia não é nova, já havia sido proposta em 2001, contudo, por trás da intenção de mostrar a D. Pedro o edifício da Câmara Municipal, está, novamente, aquilo que considero um desrespeito pelo conceito original do monumento, conceito esse que não foi, obviamente, inocente, visto que na altura da sua inauguração, os antigos Paços do Concelho também se encontravam na mesma orientação NS.
Foi o mesmo tipo de espírito de
tabula rasa com o passado que vitimou outra estátua, a de D. João VI, da autoria de Barata Feyo, situada na Praça Gonçalves Zarco, em frente ao Castelo do Queijo. A orientação da estátua foi simbolicamente disposta em direcção ao Brasil, contudo, depois das obras de construção do parque de estacionamento subterrâneo, a estátua foi recolocada de modo, vá lá, empírico, deixando D. João VI virado mais ou menos ao sabor do vento, notável homenagem ao espírito indeciso do monarca, mas lamentável falta de consideração pelo conceito artístico do escultor.
Esperemos que todas estas e outras remodelações sejam ainda repensadas, reavaliadas, não só pelos arquitectos, mas também por outras pessoas, especialistas na história da cidade e sobretudo pelos seus moradores.
MBP