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Avenida dos Aliados
sexta-feira, outubro 22, 2004
  Luto negro pelo luminoso raio perdido.
O leque incompleto formado a partir do Largo Soares dos Reis em direcção ao Campo 24 de Agosto, ao Jardim de São Lázaro e à Praça da Alegria.
Com sono, de partida para o celestial mundo dos sonhos, não resisto a deixar no Avenida dos Aliados uma fotografia tirada do céu, onde moram as estrelas.
Aqui se percebe, melhor que em qualquer outro lado, a beleza estrutural do delineamento da urbanização de 1880s, na área compreendida entre o Largo Soares dos Reis e o arvoredo com camélias do Jardim de São Lázaro, no antigo Campo do Cirne, vasta propriedade a Sul do Campo de Mijavelhas, actual Campo de 24 de Agosto.
São quatro raios disparados do Largo que se aloja em frente à entrada do cemitério do Prado do Repouso, formando um harmonioso desenho oitocentista, inspirado nas obras de Roma da Piazza del Popolo ou no genial Trianon de Versalhes, tornando o Largo Soares dos Reis no ponto focal de onde chegam e partem todas as perspectivas. Este conjunto é, muito provavelmente, o mais belo esboço urbano do Porto e encerra em si, ainda hoje, um encantamento inultrapassável.
O desenho está, contudo, incompleto... falta, e faltará sempre, abrir o quinto e último raio que cortaria parte do lugar onde descansam os mortos e que o incontornável destino e a influência poderosa da Misericórdia não permitiu executar.
Visto daqui, o cemitério, onde um dia morou a Quinta do Prado, contrasta a cor negra do luto com a acutilante magia do branco, purificadora e tranquilizante. Na mesma década de oitenta do século XIX em que as radiais ruas de Ferreira Cardoso, Conde Ferreira, Joaquim António de Aguiar e Avenida Rodrigues de Freitas foram concebidas, o escritor Júlio Lourenço Pinto, na obra "Vida Atribulada", descreve gótica e morbidamente o inebriante, cipreste e lânguido cemitério do Prado do Repouso:

"Os olhos fitavam-se-lhe com abstracção na erva espessa e cegada, renascendo mais exuberante, nas vegetações silvestres, alastrando-se por sobre as comorozinhos das sepulturas, cevando-se luxuriantemente na podridão dos corpos, e aquela espontaneidade vegetal, que se nutre de cadáveres, entretecia com a sua verdura forte um manto ridente a encobrir a morte. Naquela uniformidade mortuária sobressaíam apenas por vezes umas letras douradas, esculpidas sobre a negrura das lousas aprumadas; alguma coroa de flores murchas pendia pungentemente da pequena cruz que as remata e além um fragmento de crepe esgaçado flutuava melodicamente, à mercê dos últimos bafejos do vento que declina, triste como o aceno de um último adeus doloroso para além dos umbrais da eternidade. De quando em quando surde uma inscrição singela, um nome só, impressivo como um grito de dor lancinante; algumas flores, falando a linguagem do amor malogrado, quebram o silêncio dos túmulos; para outro lado uma roseira singela, crescendo livremente, enleia-se numa sepultura com as hastes entrelaçadas e, com as suas pequenas rosas, alegres e simples de poucas pétalas, faz lembrar uma criança sorridente que se abraça a um túmulo no júbilo da sua inocência." - Júlio Lourenço Pinto

Antes de me deitar, preparo a roupa negra para amanhã. Farei luto pela morte à nascença da Rua do Conde das Antas, o quinto raio que deveria emanar do repousante Largo Soares dos Reis. JRP
 

quinta-feira, outubro 21, 2004
  A torre, o rio e o mar.
O vale do Rio da Vila e a sempre elegante Torre dos Clérigos, no Porto, na sonolenta manhã de sábado passado.
Do grandíloquo topo do Morro da Penaventosa, junto à Sé Catedral, sempre que o vento sopra irado, o Porto parece uma velha caravela quinhentista cujo mastro se recorta na barroca figura estilizada da granítica Torre dos Clérigos.
A chuva miudinha, a nossa morrinha, salpica-nos a face como se estivéssemos na proa elevada da heróica embarcação e o vento forte colora-nos as maçãs do rosto, enquanto o poderoso Atlântico se aproxima decididamente dos nossos pés.
As ameaçadoras nuvens cinzentas, carregadas de água vinda do mar, cujo carpido se antevê no rumor que perpassa por entre o casario, dramatizam o poema épico que por aqui escrevo, fazendo supor e temer a ondulação dilacerante que por aí vem.
A cidade, onde os tectos laranjas se acotovelam na confusão, aglomeram-se densos e compactos como que formando um corpo só, pronta a saltar borda fora, ao primeiro ribombar do trovão.
Enquanto aperto o último botão do meu sobretudo, deixo cair o inspirador sonho marítimo e aligeiro o meu passo rumo à Ribeira, que a nossa alma nem sempre é feita da agitação salgada do mar, também é doce como a vagarosa corrente do rio que é feito de ouro.

"paciente e confiante (lá bem do alto da rua)
a torre espera. espera os dias iguais (os reis e
os tempos) escuta a metamorfose contínua
da cidade que foi larva e é agora borboleta.

a torre espera: espera e olha esta aldeia de
corpos pontes e águas que afagam seus pilares
pedindo para passar e olhando saudosa no tempo

sente ainda os rabelos e o vinho (carruagens
e cavalos) chapéus de senhora e os pregões. e
há um velho de bóina e bengala e milho na

palma da mão que se senta no mesmo banco
de jardim há dezassete anos que diz (e repete)
a cada pardal que o visita: «qualquer dia destes
havíamos de mudar esta torre: de sítio»
" - João Luís Barreto Guimarães
(mais info aqui). JRP
 

quarta-feira, outubro 20, 2004
  A pequena escadaria.
O Largo de Mompilher, no Porto, vigiado pela Capela de Nossa Senhora da Conceição, numa destas noites frias de Outono.
Há mesmo qualquer coisa afrancesada neste lugar. Não será apenas o trautear da palavra Mompilher, evocação recente da cidade mediterrânica francesa, mas muito, muito mais do que isso.
A luz amarelada, saída de um vagaroso filme de animação, a pequena escadaria branca, lembrando os acessos divertidamente inclinados da parisiense Montmartre à Catedral de Sacré Coeur, e o revivalista quiosque vermelho, espécie de extravagância coquete da cinematografia gaulesa, ornamentado pelo verde arbóreo recente, num primeiro plano, e nos resquícios das quintas de outrora, num plano recuado, assemelham a antiga Praça da Conceição a aconchegantes recantos das aprumadas cidades francesas.
No alto da escadaria, a albina e barroca capela de Nossa Senhora da Conceição, que é orgulhosamente mais uma achega do talento interminável de Nasoni, descansa altaneira no seu miradouro, de onde ironicamente já não vê o Douro, ocultado pelas construções em altura do século XX.
Todo este cenário foi urbanizado na década de setenta de Setecentos, numa altura em que João de Almada e Melo, Presidente da Junta de Obras Públicas do Porto, revolucionou toda a área a Norte da Praça da Liberdade através das suas ideias iluministas, de higiénicas e seguras vias largas e rectas. O encanto particular deste espaço derivou sobretudo da forma sábia como se cerziu o desnível criado pelo Monte da Doida, onde assentam as fundações da capela, com a introdução dramática de uma pequena escadaria de dois lanços. Não será obviamente a monumental escadaria da Praça de Espanha de Roma, mas é, de uma forma definitiva, mais delicadamente intimista, à escala da cidade Invicta.
Pouco sobra do tempo em que este espaço era dominado por carvalhos, pinheiros e laranjeiras, pelas quintas de Monteiro de Azevedo ou da Família Barroso, ou das cavalariças onde se adestravam os cavalos. Mas, ao longo das manhãs, é ainda possível percorrer, através do nosso olhar, as plantas antigas do Porto que decoram as montras do antiquário "Candelabro", enquanto o odor acentuado a serrim e verniz, vindo da Rua da Picaria, nos invade as narinas e nos atira para outros tempos, ajudado pela permanência de algum do edificado setecentista e pela memória mais recente do painel alusivo ao café de "A Brasileira".
Muitas vezes, quando o Sol ocupa o tecto azul do céu e me pinta a face da cor ruborizada do quiosque, subo lentamente as escadas do Pinheiro, rumo à capela de Nasoni, como um velho senhor de idade. Aí, encosto-me ao gradeamento oitocentista da varanda, e imaginando a paisagem que no final do século XVIII, coloria de verde e azul a linha do horizonte, perpetuo na minha cabeça os degraus tortuosos de que fiz a minha vida. JRP
 

terça-feira, outubro 19, 2004
  Amizade

Depois das grosserias que ouvimos nos últimos dias, apetece relembrar coisas boas.
A amizade está, para mim, entre as melhores coisas que a vida pode oferecer. Mesmo que às vezes o tempo ou a distância limite um pouco os rituais da amizade, os amigos sabem que são amigos e isso basta.
A propósito deste tema, lembrei-me de recordar uma velha e cavalheiresca amizade entre o Porto e Vigo.
Convívio entre jogadores do Futebol Clube do Porto e do Real Fortuna de Vigo (actual Celta de Vigo), 12 de Janeiro de 1908
Eis aqui uma recordação do primeiro jogo internacional realizado em Portugal. Uma recordação com quase 97 anos, mas que nos aquece ainda hoje e dinamiza o espírito fraterno. MBP
 

segunda-feira, outubro 18, 2004
  6 meses depois...
Inauguração do Estádio do Dragão, como eu o vi, ao som da voz de Isabel Silvestre, em Novembro de 2003, na cidade do Porto.
Foi, de facto, bonita a atitude do presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, em dedicar a vitória de ontem, em casa de um clube representativo de uma freguesia lisboeta, ao meio ano de existência do Avenida dos Aliados. Foi pena que essas palavras tenham sido proferidas quando a direcção da agremiação lisboeta decidiu censurar, desligando o microfone, as declarações do presidente azul e branco na sala de imprensa, quando este desejava apontar a barbaridade de colocar os cerca de 4000 adeptos do Campeão Europeu num espaço para 1000 indivíduos, numa acção conjunta do inglório clube de Lisboa e do inseguro Ministro da Administração Interna.
Da nossa parte, senhor presidente, muito obrigado. Apesar de o clube, que representou desportivamente o fascismo, o ter tentado calar e de a comunicação social não denunciar esse energúmeno Vieira, vulgarmente conhecido como o Khaddaffi dos Pneus, pela invasão de um estúdio de televisão da Sic Notícias ou pelas declarações próprias de um boçal saloio, sempre na bela companhia do inocente pistoleiro José Veiga, o Avenida dos Aliados jamais se esquecerá do seu currículo, do amor que tem pelo clube e pela cidade e de como transformou um clube português num dos melhores da Europa, a milhas e milhas de distância de qualquer outra agremiação lusitana, contra todo um país autista e macrocéfalo.
O Futebol Clube do Porto, fundado a 28 de Setembro de 1893, é, hoje em dia, a par do Vinho do Porto, a principal referência da cidade pelo mundo, fundamental em termos turísticos, comerciais e publicitários à gestão económica da cidade das tripas, sinónimo de vitória e qualidade, no mediático mundo do futebol europeu.
Seis meses volvidos, o Avenida dos Aliados mantém a sua bandeira desfraldada em movimentos ondulatórios por entre as ruas do Porto, nas mãos daqueles que nos escrevem. A mesma bandeira azul e branca, onde pontifica também o coração de D. Pedro e a Senhora da Vandoma, deslizava vibrante por entre a multidão em delírio, naquela gélida noite, há cerca de um ano atrás.
No azul e no branco do clube que um dia se chamou “Grupo do Destino”, perco os meus olhos entre a irracionalidade incompreendida da paixão clubista e o orgulho espiritual de um sentimento portuense, fazendo-me acreditar que a Atlântica vontade de navegar ininterruptamente, conduzirá o Avenida dos Aliados a, pelo menos, mais seis meses de defesa da cidade do Porto.JRP
P.S. - Já agora, dado que cometi o erro de invocar o presidente do clube do Antigo Regime, aproveito para continuar a falar de horrores e barbaridades. Está nas nossas mãos acabarmos com a incivilizada e abjecta tourada. O Avenida dos Aliados tem toda a honra, e sublinhe-se, toda a honra em apoiar a luta contra esta barbárie e incentiva todos os seus leitores a visitarem e ajudarem a organização Animal, na luta contra esta manifestação primata.
 

domingo, outubro 17, 2004
  Auschwitz
Faltam vinte minutos para as dezanove horas. Os adeptos do FCP estão a ser empurrados para dentro de uma garagem do novo estádio da Luz. Neste momento há já feridos, as primeiras vítimas da arrogância e da boçalidade de Luís Filipe Vieira.
Espero que tudo corra da melhor maneira, mas com todos estes tiques nazis da direcção do SLB, não prevejo um desfecho feliz. MBP
 

Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.
A Praça Nova está de volta!
Que trema o país...
Blog gerido por Jorge Ricardo Pinto (JRP) e Mário Bruno Pastor (MBP). Qualquer dúvida, insulto, comentário ou tentativa de extorsão, contactar: aliados.blog@portugalmail.pt

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