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Avenida dos Aliados
quinta-feira, outubro 14, 2004
  Ainda a torre.
A esbelta Torre dos Clérigos na boa companhia da Igreja de São Lourenço, do Paço Episcopal e das Torres da Sé, numa fria noite deste Outono no Porto.
Vista daqui, sem a carga dramática dos arruamentos rectilíneos da baixa do Porto, a Torre tem sempre diferentes formas de me surpreender, travestindo-se, da sua silhueta e nome feminino, num masculino objecto aguçado de forma fálica.
Hoje, parece-me um menino traquinas que espreita, no meio da maralha, para aparecer na tímida fotografia tirada do outro lado do rio. Mas ontem, por entre a mesma turma rebelde e apertada, assemelhava-se a uma professora de idade que conseguia, através do seu semblante severo, manter a ordem e a disciplina, sem que a sua figura escultural não deixasse de despontar nos alunos os seus primeiros instintos sexuais.
Ás vezes, toma apenas aquela pose épica e sublime de ponto de exclamação, quase metafísica e sobrenatural, que nos deixa assombrados, perplexos e boquiabertos, à espera que o próprio Deus que a criou a utilize como escada escolhida do firmamento, descendo do céu para nos abraçar a todos na Terra. Enquanto me divido confuso entre o sagrado e o profano, recordo-me de um poema homérico de Jorge de Sena.

"Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter...
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana."
Jorge de Sena

(mais info aqui). JRP

P.S. - Uma nota apenas para agradecer a todos os que nos escrevem: a caixa dos comentários cheia de observações inteligentes é o melhor presente que nos têm oferecido pela construção do Avenida dos Aliados. Merecem também um abraço especial o Desnorte, o Abrupto, o Blasfémias, o a Baixa do Porto, o Vilacondense e o Pensamentos Diversos, todos eles de uma qualidade inquestionável, pela importância que têm tido na divulgação do Avenida dos Aliados. Finalmente, um abraço sincero aos leitores Rio Fernandes e Mário Fernandes, que tanto me ensinaram de tudo aquilo que aqui escrevo, e uma menção particular ao leitor Jorge Leitão que, enquanto passeia a sua classe futebolística por Inglaterra, vai matando saudades da Invicta através das nossas linhas e das nossas imagens. O próximo golo tem que nos ser dedicado!
 

quarta-feira, outubro 13, 2004
  Tragédia barroca.
O eixo 31 de Janeiro/Clérigos num final de tarde de Agosto de 2003, imensamente perdido entre a poluição e o isolamento.
Da minha varanda preferida, descubro o dramatismo barroco dos Clérigos e sinto-me parte integrante da lógica que presidiu à construção deste espaço, no final do século XVIII.
Do topo de cada vertente, duas igrejas setecentistas se enfrentam, num louco confronto de titãs, dramatizado pela rectilínea extensão abrupta dos arruamentos que as precedem, como um longo véu de uma noiva que abandona irada o altar.
Daqui, observo, ao mesmo tempo, a gloriosa Araucaria bidwillii, que cresce assustadoramente no empedrado Jardim da Cordoaria, uma espécie de árvore monstruosamente antropomórfica que um dia engolirá a própria torre.
A cidade apita, sussurra, grita e silencia por entre as primeiras luzes do anoitecer, enquanto desço a lateral escadaria longa de Santo Ildefonso, encurtada pelo voraz apetite do tempo e do dinheiro.
No meu longo caminho rua abaixo, passo lento junto a uma mulher larga que chora emocionada, apoiada pela criança que a segura nos braços e lhe pede calma. Mais à frente, um homem cinquentão ampara pelos ombros a mulher inválida com quem um dia, há muito tempo, validamente se casou. No mesmo instante, uma outra criança morena brinca aos castelos de areia na praia da Luz, com um punhado de grãos molhados na mão direita que deixa pingar lentamente sobre o areal, criando uma espécie de estalagmite gigante e esbelta, decorada por conchas e vieiras.
Ao levantar de novo os meus próprios olhos, na descida escarpada do caminho, entendo finalmente que o barroco do Porto é assim, uma linha recta feita pela lágrima, entre o olho e o colo, do princípio ao fim da rua, num percurso feito de curvas entre o nascimento e a morte, da volta e da confusão, nas fachadas graníticas das Igrejas do Porto.
Descer 31 de Janeiro é, para mim, uma tragédia barroca, sempre perto de marejar intensamente os olhos e de perceber enfim a linha aparentemente recta da minha vida absurdamente curva. JRP
 

terça-feira, outubro 12, 2004
  O rio da minha aldeia.
O Porto das pontes, visto por mim do Araínho, quando ainda nem te conhecia, em Setembro de 2003.
Era muito suave a brisa que me balouçava em areia fina, nas margens do Douro, em qualquer ocaso perdido em Setembro. Baloucei errante também na plataforma de madeira que alberga barcos e botes pequenos junto à melancólica praia do Araínho, criando a sensação de estar em Veneza, mesmo ali, junto ao Porto.
Daqui, a cidade parece longe, e ela, afinal, está acolá, bem perto, do outro lado da água.
Por entre o buraco da agulha criado pelas pontes, se enfiam as torres da Sé que do alto do Morro da Penaventosa vigiam de esguelha este lugar, há muito mais de uma mão cheia de séculos. Os seus melódicos sinos são sempre agitados pela ondulação do Douro, através de um mecanismo complicado apenas conhecido por meia dúzia de Deuses do Olimpo.
E é o som da água que cria o silêncio, por entre a solidão de final de tarde, quando me sinto a Oriente de tudo, cada vez mais a leste da cidade, da vida e, incontornavelmente, a levante de mim. As cores que pincelam em tons rosados o azul do firmamento servem apenas para agudizar esse silêncio profundo do barulho das águas, que transforma o Porto numa pequena aldeia encimada pelas duas torres de uma quase milenar igreja.
Ao desfolhar umas folhas velhas imprimidas, desvendo, ainda em silêncio, as palavras de um portuense para quem o tempo, as torres da Sé e todas as pontes do Porto são recorde a bater em idade, sabedoria e talento.

«"O rio da minha aldeia", o Porto, é o Douro. Restam ainda neste rio vestígios deixados em tempos longínquos, mas ainda memoráveis: são os típicos barcos rabelos, reminiscência de quando ali vinham os Vikings, tirar o ouro que havia nas areias do rio, no lugar do Araínho.
(...)
Como homem do Porto e do cinema fiquei mais apegado ao Douro, que este sim "é o rio da minha aldeia". Nele me vejo e me revejo como num espelho multifacetado, pois ontem era uma cousa e hoje já é outra, outra será certamente amanhã. Assim como ele mudou também eu mudei e já não sou hoje o que fui ontem e não serei amanhã o que sou hoje. O que quer dizer que a vida corre por dentro da gente como as águas nos cursos talhados para os rios até chegar ao seu finamento.
Finamento que é a nossa entrada para esse grande espírito, esse imenso Oceano onde todos acabaremos por desaguar.
» - Manoel de Oliveira
(mais info aqui). JRP
 

domingo, outubro 10, 2004
  Litografias
Vista do antigo Convento de São Bento de Avé Maria, litografia de G. Vivian e L. Haghe, editada em Londres, 1839
Num rasgo rápido, podemos observar esta imagem congelada da cidade e da sociedade de outros tempos.
Muito predominantes, as mulheres descalças eram obrigadas a cobrir o corpo e a cabeça com mantilha preta. Uma ou outra equilibra o cesto do peixe que trouxe da Ribeira, porque sem trabalho não há pão e mesmo assim adivinha-se que este, ao contrário do primeiro, não seja muito.
Entretanto, dois almocreves montados sobre um burrico descem lado a lado, mais abaixo, um outro troteia sozinho, aparentemente sem mercadorias, talvez as tenha descarregado algures nas casas ricas da Rua Chã.
Ao fundo da escadaria lateral do Convento de São Bento de Avé Maria, dois homens de varapau conversam: a guerra civil acabou há uns anitos, os Passos já vieram de Lisboa e a nova Constituição tem já os dias contados; depois de um vislumbre de democracia, o reino, demasiado tacanho, assustou-se e quer voltar atrás. Um pouco acima desses homens, um rapaz de barrete transporta um barril que parece pesado, talvez esteja cheio de vinho, porque a água só é embarrilada como provisão para os navios e o rapaz não vai para o cais. Talvez lhe faltem os meios e a coragem para sair daqui.
Sempre tutelar e desenhada fora de escala, a Torre dos Clérigos, vigia o burgo, como um dedo no ar a exigir silêncio. MBP
 

Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.
A Praça Nova está de volta!
Que trema o país...
Blog gerido por Jorge Ricardo Pinto (JRP) e Mário Bruno Pastor (MBP). Qualquer dúvida, insulto, comentário ou tentativa de extorsão, contactar: aliados.blog@portugalmail.pt

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