Avenida dos Aliados
Pedro Homem do Porto.

O Porto na sua pose altiva e distante, como o vimos ontem, algures na outra margem.
No ano do centenário do nascimento de Pedro Homem de Mello e dos vinte anos do seu desaparecimento, seria de todo injusto não o recordar nesta
Avenida dos Aliados. Já sublinhamos
aqui ou
aqui, a forma incompreensível como algumas das principais personalidades históricas do Porto, no domínio político, urbanístico ou cultural, têm sido vilipendiadamente esquecidas. Pergunto-me constantemente se ainda existe um Pelouro da Cultura na edilidade Portuense ou se este foi fundido, derretido e dissolvido nas paredes de betão da disforme Casa da Música.
O instante que apreendi na pequena caixa a que chamo máquina, reflecte indigentemente a beleza grandiosa do cenário majestoso que se depara à minha frente, mas é a desculpa certa para evocar quem está a ser esquecido...
Porto à noite
A noite desce... Com que lentidão
Comigo ela se deita!
E luminosos os anúncios vão
Tornar a vida em nós menos estreita.
Em cada rosto esfolha-se uma rosa
E cada ruga já desaparece!
E a carne, a minha carne voluptuosa
Sôfrega vai de encontro a qualquer prece
Voltam as ruas a imitar os rios
(Há quem deslize, às vezes, como um barco...)
Voltam a encher-se os corações vazios
Nesta cidade embandeirada em arco.
Sapek-Adubos; Tagus ou Bonança?
Jardim suspenso cujo aroma diz
Que os homens crescem quando a noite avança
A desprendê-los, quase, da raiz.
Cidade rubra ao longe e, ao perto escura
Gula insaciável de vilanovenses!
De que poetas andas à procura
Se aos meus poemas ávidos pertences? - Pedro Homem de Mello
(mais info
aqui).
JRP
Como no cinema...

O Douro e a Ponte Luís I, como eu os vi, ainda há pouco, do alto da Ponte do Infante.
A lentidão cinematográfica que tenho imprimido nos últimos posts é agora esquecida e ultrapassada pelo acelerar da queda da areia na ampulheta que agarro resistentemente na palma da minha mão.
Os carros céleres, como disparos galácticos inter-planetários, adicionam
rapidez ao processo e, num ápice, a ponte de ferro fica pronta, iludindo-me através do reflexo do rio e da muralha gótica que oculta mistérios antigos.
Como que manipulada por uma criança traquinas, a ponte parece uma pilha de Legos dinamarqueses, desde que carrega a sua farda ortogonal axadrezada, cheia de andaimes e ferros e vigas e tudo.
Enquanto o tempo passa à super
velocidade Warp, consigo vibrantemente vislumbrar o primeiro
metro a passar sobre a ponte, tornando gigante a sensação que a cidade incute de maqueta dinâmica na garagem das traseiras de um qualquer maníaco das miniaturas.
Enquanto todo este cenário tão esquizofrénico como sumptuoso se perpetua no meu olhar, o Rio Douro, irónico e maldizente, canta sorrindo ao meu ouvido esta canção:
Ó rio de águas claras
que vais correndo p'ró mar
não contes as minhas penas
tem pena do meu penar.
E assim, conformado e acomodado, me esvaio pelo estreitar da ampulheta, nas areias de uma qualquer praia Atlântica, onde o Rio, que acabou de me cantar ao ouvido, me leva ainda sorrindo e sem qualquer mágoa, como um pai embevecido pelo regresso do filho pródigo.
JRP
O Porto e a República.

A Praça de D. Pedro, actual Praça da Liberdade, aquando do anúncio da implantação da República, em 1910.
Assim se vestiu a Praça há 94 anos, quando pelo Porto ecoaram finalmente as notícias da queda da Monarquia e da implantação da República.
Ali mesmo onde estamos, se haviam travado combates urbanos intensos cerca de 19 anos antes, aquando da pioneira Revolução de 31 de Janeiro de 1891, numa séria tentativa de implantar a senhora dos seios desnudados no país.
A tragédia acabou por surgir logo ali, no dobrar da esquina, na então
Rua de Santo António, através do encurralamento dos rebeldes republicanos pelas forças monárquicas, terminando tudo num enorme banho de sangue. Contudo, o Ultimato Britânico de 1890 e, sobretudo, a profunda crise económica e financeira e a forte descrença nos governantes conduziram incontornavelmente ao desabrochar da República a 5 de Outubro de 1910.
No Porto, a Praça encheu-se. A população acotovelou-se junto ao majestoso edifício da Câmara, ao fundo na imagem, sob o olhar atento da
estátua ao Porto, que encimava o referido edifício.
Era assim, nas costas de D. Pedro IV, que era proclamada a República no Porto, ele que seria uma das vítimas de tal destino, já que o rei liberal viu desaparecer o seu nome da toponímia portuense. Até então, o rei-soldado era evocado numa praça e numa rua. Após este dia, não só a Praça mudou para Liberdade como o antigo arruamento, entretanto demolido com a abertura da Avenida dos Aliados, passou a designar-se de Elias Garcia, destronando o antigo topónimo de Rua de D. Pedro.
A referida rua está tapada na imagem pela árvore de dimensões assinaláveis que vicejava em frente ao antigo
café Suíço, onde os portuenses discutiam acaloradamente a importante notícia que circulava eufórica na cidade. Dali, descia, naquele momento, por entre o turbilhão da multidão, um jovem eléctrico em direcção ao antigo Palácio de Cristal, preparando a curva para subir os Clérigos. Nesta altura, a placa central ainda era quadrada, e o rei,
sozinho no seu cavalo, ainda não tinha que partilhar a sua antiga praça com as mãos cheias de automóveis que diariamente ocupam o lugar. Ao longo do século XX, a Praça foi definhando e, de centro económico, social, político administrativo e simbólico, passou a placa giratória de trânsito, cruzada apenas pela população na pressa de um café ou de picar o ponto no emprego.
O rei, contudo, manteve-se firme enfrentando o Sul e liderando o Porto, ainda que algumas
mentes brilhantes o quisessem afastar do lugar (e até, espantem-se, virá-lo ao contrário!), retirando-lhe a austral iluminação solar e a carga histórica de afrontamento ao absolutismo lisboeta, onde está desde 1866 ao leme da Invicta cidade, como ele próprio epitetou.
Não merecerá o rei, que doou o seu coração à cidade, o seu nome na toponímia portuense?
JRP
Dourodeias.

O Porto Oriental e o Douro, como eu os vi a partir da Serra do Pilar, numa noite quente de Julho de 2004.
Por entre o profundo silêncio da noite, observo parte do local onde temos sensorial e prazenteiramente passeado nos últimos dias.
Deste lado, na outra margem do Douro, onde as luzes da cidade confundem o olhar, esta acalmia nocturna parece tornar a vertente contrária mais suave, mais doce até. A rampa das carquejeiras trepa sólida a inclinação abrupta e abriga o bairro denso da Corticeira de final de XIX, por onde a luminosidade desvenda, em trilhos incertos, as habitações humildes de outras épocas.
Lá no alto, lá ao fundo, a Igreja do Bonfim é, ao mesmo tempo, Farol de Alexandria e Aurora Boreal, na mira encantadora de um perdido caminhante, para o qual as saudades de casa são alimentadas pelo clarão firme da fachada. Naquele lugar, onde, em tempos, uma cruz marcava o final de uma via-sacra que começava na Batalha, a elevação proporciona panorâmicas quase mágicas, em que a ilusão é acentuada pela visão distante do mar a ocidente e pelos relevos acentuados de Gondomar e Gaia, cruzando o aroma a maresia com os verdejantes olfactos campestres.
Cá em baixo, a estrada marginal segue temente e receosa o curso do rio onde também o meu olhar se perde de forma infinita. Seguindo instintivamente as temperaturas quentes do vale do Douro e o aroma apaladado da vinha, deixo-me guiar, mais uma vez, pelas palavras sonhadas por
José Gomes Ferreira, enquanto navego na jangada da minha imaginação pelo Douro acima, coberto pelo lençol de estrelas que casuisticamente ornamentam o céu.
(Nota prévia do autor: "Nova viagem pelo Rio Douro. Descoberta das Dourodeias.")
À noitinha
lançávamos a âncora para as nuvens
por proposta minha
ou encalhávamos o barco
nas areias
do Douro.
Enquanto as Dourodeias
vinham ao de cimo
brincar nos reflexos das águas
com olhos de limo,
cabelos de algas,
despenteios de espuma trazida do mar.
Eram ao mesmo tempo
mulheres, peixes, aves e frio
que nadavam ao luar
e voavam no fundo do rio. -
José Gomes Ferreira
(mais info
aqui).
JRP
P.S.- Para quem, como nós, os poemas de José Gomes Ferreira são pequenas pitadas de Norte e de génio, podem ver aqui, aqui ou aqui, outros exemplos publicados no Avenida dos Aliados da sua eterna ligação à cidade do Porto.
Trilho Oriental.

O Douro e os arcos esbeltos das nossas pontes. O Porto visto de Oriente, em Maio passado.
Na sequência do
post anterior, resolvi recordar o dia em que sozinho percorri, numa solarenga tarde de Maio, a antiga linha da Alfândega.
O calor, que se começava a fazer sentir, confundia-se com os aromas silvestres das ervas selvagens que crescem agrestemente na encosta tripeira do Douro.
Desci corajoso a escarpa, sujeitando-me a tragédias mais ou menos dramáticas, e sujei orgulhosamente a minha indumentária, numa acção de rebeldia ao jeito de um
Indiana Jones, sem chapéu e sem chicote.
O percurso revelou-se misterioso, enigmático e, tantas e tantas vezes, deslumbrante. Através daquele trilho, as curvas do Douro e as diferentes perspectivas sobre a cidade pareciam retiradas de um manual renascentista de bem-fazer arruamentos, num tratado de
Alberti ou
Palladio. A religiosa experiência solidificou-se através das abóbadas criadas pelas pontes. Primeiro a
Dona Maria, depois a do Infante e, lá ao fundo, a Luís I, espécie de baliza de cantos redondos onde o olhar inevitavelmente marcava sempre um golo.
O passeio fazia-se aparentemente esquecido dos cacos e seringas que ia pisando amiúde, para além da companhia insólita e invulgar de automóveis enferrujados e abandonados, das ruínas, quase helénicas, de património industrial portuense e dos clássicos tubos
Pont a Mousson que, tal qual o
fio de Ariana em Creta, serviam de pista e auxílio para a saída deste peculiar lugar.
Mas é a presença azul do rio, que cruza cada um dos arcos que vejo, que embala o meu passo, apenas acelerado pela passagem do imponente barco de recreio. De repente, sinto-me na pele de
Tom Sawyer e o Rio deixa de ser d'ouro e passa a ser o lamacento Mississipi que acompanho correndo, à imagem dos desenhos animados da minha meninice.
É por isso que, aqui na
Terra do Nunca, eu posso ser sempre o que eu quiser, mas, infelizmente, ninguém quer fazer deste lugar, aquilo que ele merece.
JRP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.