Avenida dos Aliados
A leste do desenvolvimento.

A margem direita do Douro, a montante da Ponte Luís I, num final de tarde de Maio de 2004.
A maior virtude da nova e discreta Ponte do Infante reside na possibilidade de a desfrutar como uma nova varanda sobre o Porto e, em particular, sobre a vertente esquecida para lá da ponte de ferro que Seyrig projectou.
As cores garridas proporcionadas pela tangente próxima do Astro Rei à linha do horizonte maquilham a incontornável paisagem desoladora que a nova varanda desvenda. Sob os meus pés, observo uma escadaria desenhada para Gulliver, onde o casario liliputiano se amontoa, velho, esquecido e, em grande parte, abandonado.
Lá em baixo, onde se coloca o primeiro degrau, os carros passam céleres e cegos à paisagem potencial deste espaço, olvidados do objectivo turístico que impulsionou a construção da Avenida Gustav Eiffel, no final da década de 40, do século XX.
Na passada seguinte, vertente acima, pisamos a antiga linha da Alfândega que, depois de desmantelada, viu-se desamparada e desprotegida, nunca tendo sido equacionada para serventia da cidade, quer servindo de tripa para o Metro, quer requalificada para passeio público. Pelos túneis que se sucedem no seu percurso, não há quem acenda uma luz.
E depois de ultrapassado o degrau da linha do caminho-de-ferro que liga São Bento a Campanhã, chegamos seguros à Rua Gomes Freire, antiga Rua do Wellesley, por onde as tropas inglesas terão penetrado no Porto aquando das Invasões Francesas.
Aí, no topo da escadaria, temos a percepção firme de que alguém se esqueceu deste lugar, onde a paisagem do Douro serpenteando encaixada, ainda impressiona quem verdadeiramente a observa. O sentimento bucólico que norteia este momento é desmoronado pela passagem rápida do cavalo de ferro que subitamente aparece sob o chão das Fontainhas.
O Colégio dos Órfãos, que espreita lá ao fundo, foi espectador atento dos últimos cem anos de construção deste lugar. Ele, que foi ocupar o espaço do antigo Seminário, na quinta do Prado, destruído durante as Guerras Liberais, vigia sisudo e altivo o eterno e vizinho movimento constante de locomotivas na vertente. Por onde outrora a Quinta da Fraga se estendia, cresceu o Porto Industrial de final de oitocentos, das tecelagens e dos curtumes, erguido pelos migrantes da linha do Tua, e que hoje jaz definhando lentamente, junto ao cemitério do Prado do Repouso, nas esquinas da Praça da Alegria e nas ilhas de São Victor.
A proximidade de São Lázaro será capaz de reavivar milagres bíblicos e reerguer este lugar?
JRP
P.S. – O título deste post é inspirado num brilhante artigo do Professor José Alberto Rio Fernandes numa edição antiga da fundamental revista "O Tripeiro". Nesta mesma publicação, tive o privilégio de, em co-autoria com o referido professor, escrever um artigo sobre “A Marginal do Porto da Ponte D. Luís I ao Freixo”, na edição de Setembro deste ano. Humildemente, aconselho a todos os que se interessam pela cidade Invicta a leitura deste artigo e, já agora, a assinatura daquela que é a publicação mais importante e mais completa sobre a cidade do granito.
Então, usa o chapéu dourado.

A Foz do Douro, em pleno Verão Azul, como eu o vi por entre o raiar de um final de tarde.
«Then wear the gold hat, if that will move her;
if you can bounce high, bounce for her too,
Till she cry "Lover, gold-hatted, high-bouncing lover,
I must have you!"» - Thomas Parke D'Invilliers
A
écharpe ondulante que visto enquanto conduzo o meu
cabriolé vermelho, vai traçando o perfil serpenteado da marginal azul do Porto, no caminho para a Foz, recordando-me dos meus saudosos tempos em
Nice.
As festas nocturnas, nos iluminados jardins de tantos e tantos amigos, eram a
mis-en-scene perfeita para conversas sobre arte e modernidade, sobre
Corbusier e
Mies Van der Rohe, entrecortadas por pequenos
flirts dançantes, ao som do
Jazz e do
Swing, nas salas convertidas em salões, dos
Parker ou dos
Kent, donos de metade da
Côte d'Azur. Ali, tal como aqui, a expressão
Belle Epoque ainda faz sentido.
Assim que pouso os meus negros óculos de Sol no
tablier, aprecio sorrindo as açucaradas formas esculturais das árvores que vão cinzelando o Passeio Alegre e a linha do horizonte e que me transportam docemente para os enormes jardins privados, nas encostas suaves junto a
Cannes, onde os
rendez-vous de final de tarde, em casa dos
Buchanan, se revelavam divinais, por entre a sombra das palmeiras, o vigor das araucárias e os ramos libidinosos dos pinheiros. Algures entre a vegetação, o Sol mediterrânico espreitava glorioso, no intenso e azul céu da França Meridional, colorindo as embarcações luxuosas que salpicavam o mar e que nos conduziam, nas noites quentes de Verão, ao Casino de Monte Carlo, sempre que a Miss Baker ou a Bernardette se lembravam de tal ideia.
Aqui, pelos caminhos da Foz, enquanto arranjo o
Rolex no meu pulso e abro mais um pacote de
Peter Stuyvesant, vou preparando o estômago para os
croissants da pastelaria Doce Mar ou os
éclairs da confeitaria Tavi.
É, então aí, que ponho o meu chapéu dourado. Que sorte que eu tenho em ser arquitecto…
AJ ou
JRP
Cidade aberta ao vento leste.

O Rio Douro visto a partir do Bairro Inês, em Monchique, no Porto, numa noite quente de Setembro.
O Douro passa plástico, quase gelatinoso, sob a atmosfera quente deste anacrónico calor Outonal. Enquanto do lado de lá, em Gaia, se sentem as batidas fortes dos pequenos nichos ruidosos onde corpos dançantes se pavoneiam delirantes, no Bairro Inês, junto à Rua Sobre-o-Douro, o silêncio e a tranquilidade imperam voláteis como o calor entre massas frias.
Aqui o tempo passa devagar, ritmado pela própria cadência do Douro, que parece mover lentamente a mó do relógio antigo que tenho no pulso. Sentado, estico-me para a frente para ver a ponte e apoio os meus braços cansados no muro da varanda que dá para o Rio. Daqui observo não só a cidade que me viu nascer, mas observo também, pardacentemente, a minha própria vida a esvair-se: "
No Porto nasci, no Porto hei-de morrer", dizia-me um antigo e rouco amigo de alguém que conheci.
As palavras ecoam na minha cabeça como as batidas fortes e insanas vindas de Gaia e a luz turva, sonoramente conduzida através dos candeeiros da Marginal, e as cores
neónicas, que reflectem alucinantemente no rio, encandeiam e incendeiam o meu pensamento. Aqui, entre o amarelado e pesado edifício da Alfândega e as ruínas do esquecido Convento de Monchique, alguém menos feliz baralha tudo na minha mente, fazendo ressoar na parede granítica que sustenta a Rua da Restauração, o poema nocturno de Eugénio de Andrade:
"Um Rio te Espera
Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.
Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros nocturnos.
Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.
Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.
Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque;
sombra pura
nos grandes dias de Verão.
Estás só.
Desolado e só.
E é de noite." - Eugénio de Andrade
(Mais info
aqui.)
JRP
Tempos Modernos
"
Eis aqui uma conta abreviada de todas as embarcações assim portuguesas como estrangeiras, que entraram neste porto em o ano presente de 1787. Portuguesas entraram 191, e saíram 1787 […]. Embarcações inglesas entraram 211 e saíram 189. Holandesas, entraram 22; dinamarquesas 18; suecas 19; espanholas 11; e assim à proporção, falando de outras nações, como francesas, hamburguesas, prussianas, alemãs, venezianas, dantziquesas e genovesas." -
Padre Agostinho Rebelo da Costa,
Descrição Topográfica e História da Cidade do Porto, 1788
Antes da fotografia, a azáfama das grandes cidades era gravada desta forma.

Vista da Cidade do Porto, pelo gravador Aguilar, em 1791
Os homens trabalham no cais de Gaia, erguem navios, calafetam cascos. Dão ordens. Tudo tem que funcionar porque os dias são de muita agitação.
A cidade cresce desmesuradamente, desmuradamente. Ao fundo, sobre a direita, a nova torre dos Clérigos assinala a modernidade de toda uma nova cidade.
O velho século despede-se sem se dar por isso, enquanto o futuro vai chegando todos os dias a bordo dos navios do mundo inteiro.
MBP
Enigma 6.

Fotografia de Domingos Alvão. O Porto na transição do século XIX para o século XX.
O Garrett e o Camilo
Mais o Infante e o São João...
Ironia do destino! O tic tac
É a rima da canção.
O tempo passa e muda tudo,
junto àquela Bela Princesa,
Não te enganes pelo olhar,
mantém a memória acesa...
Passos e moda, sangue na roda,
Tudo se compra, tudo se vê,
Aqui estiveste que eu bem sei
Aqui o comércio é o abc.
JRP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.