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Avenida dos Aliados
sexta-feira, setembro 24, 2004
  Europeísmo e Progressismo.
As ruínas do Convento de Monchique sob o olhar atento do bairro Inês, da Rua da Restauração e dos Jardins do Palácio de Cristal, vistos por nós na passada tarde de sábado.
O ambiente mediterrânico proporcionado pelas cinco Palmeiras-do-México, Washingtonia robusta, das sete que perfazem o conjunto do Palácio de Cristal, é esticado pelos seus portes altivos e emproados que, lá do alto, vigiam toda a cidade. Sob os seus olhares atentos, vão competentemente controlando o movimento rápido das máquinas na Rua da Restauração, que corta em queda abrupta a vertente, o solarengo e distraído Bairro Inês, memória dos bairros operários de outros tempos, e as ruínas abandonadas do Convento da Madre de Deus de Monchique, onde, de forma desafiadora, me infiltrei repticiamente, através da única parte recuperada do edifício.
Nas quatro paredes que sustentam as ruínas do antigo convento habitam ainda soturnos fantasmas femininos, incrustados nos vestígios de nichos e altares que ainda são visíveis nas calamitosas paredes.
Monchique é topónimo antigo, anterior mesmo à nacionalidade portuguesa, e lembrará possivelmente, tal qual o Montjuic catalão, o antigo Monte dos Judeus, a Norte de Miragaia. A comunidade judaica transitou dali, na mudança do século XIV para o século XV, para a Judiaria do Olival sob as ordens de D. João I, abandonando, entre outras edificações, a sua Sinagoga que estaria aqui mesmo, onde me coloco, no lugar onde foi, no século XVI, construído o convento das franciscanas, à imagem do convento de São Bento da Vitória, também ele substituindo a Sinagoga do Olival, após a expulsão definida por D. Manuel I.
O vento que passa alto, numa versão moderada de jet stream, abana as vigilantes Palmeiras-do-México, criando a sensação de reprovação pelo estado marginal a que um edifício como este foi votado. Aqui esteve, por exemplo, uma capela riquíssima em talha dourada, rival da de São Francisco e Santa Clara, e viveram sob a protecção destas paredes um número assinalável de freiras ao longo dos séculos, muitas vezes em situação miserável, pelo menos até ao Cerco do Porto. Após a vitória liberal, e ainda que estas tivessem sempre manifestado o seu apoio à rainha, foram desterradas para o feminino convento de São Bento de Avé-Maria.
Aqui em Monchique, neste ameaçador e sinistro convento, onde ainda hoje um alpendre gigantesco e a imagem enorme de uma santa arrepiam quem por ali passa de noite, Camilo imaginou o desfiar da trama de Amor de Perdição. O peculiar escritor, nascido em Lisboa mas assumidamente Tripeiro, escreveria as seguintes palavras no seu conto A Sereia, referindo-se ao espírito e mentalidade do Porto:

"De facto, nós os portuenses, em que pês a nossos detractores, já somos europeus há muito mais tempo do que geralmente se cuida. Há quase um século, já os nossos antepassados conheciam a bernarda patriótica e a ópera italiana; duas coisas sem as quais não há europeísmo, nem progressismo possível." - Camilo Castelo Branco, A Sereia, 1865.

Infelizmente, a visão realista desta edílica paisagem, mostra-nos que o progressismo do Bairro Inês e o Europeísmo dos Jardins do Palácio de Cristal são pequenos traços desse passado, enegrecido pela atitude miserável de país do Terceiro Mundo perante a memória e o património cultural, religioso e simbólico como o Convento da Madre de Deus de Monchique. Parece-me a altura certa para aplicar a velha expressão: Isto é tudo de uma Pobreza FranciscanaJRP
 

quinta-feira, setembro 23, 2004
  Uma certa maneira de me refugiar na tarde.
A Ponte da Arrábida, como nós a vimos (lembras-te?) da barra do Douro, no final de Julho de 2004.
O regresso quente do calor faz recuar os ponteiros do relógio que comanda o meu cérebro e atira-me para um final de tarde de Julho, onde a insensatez de um filme francês dos 60s se misturou com os aromas afrodisíacos da maresia.
Os finais de tarde no Porto são mesmo sublimes. Daqui, olhando para levante, onde o arco de betão circula o meu olhar, observo a Igreja da Lapa curiosa, espreitando timidamente sobre a ponte, onde a população frenética se divide paradoxalmente entre dois sentimentos. Por um lado, a angústia crua pela demora impotente da espera e, por outro, o deleite inebriante que a arrebatadora paisagem sobre a barra proporciona. Logo a seguir, passará ao meu lado o pequeno barco negro sobre as vibrantes águas azuis do Douro que melodicamente contrastam com a albina e sonolenta comunidade de gaivotas que discretamente adormecem com a lenta e amarelada queda do Sol no firmamento.
Sempre que passo por cima da obra maior de Edgar Cardoso, há um sincero desejo em mim... quero que o trânsito me obrigue a parar, para que, sem demoras nem riscos, possa contemplar o lugar onde me encontrava neste final de tarde, em que o desenho ousado da barra no lugar onde o rio encontra o mar, espelha em tons dourados os momentos agonizantes do Sol antes de um adeus.
Antes de me apontar para o profundo Atlântico e virar costas à rainha Arrábida, recordo as palavras que o poeta Eugénio de Andrade escreveu, no longínquo ano de 1979, que incondicionalmente retratam a forma como o Porto entrou sorrateiro em mim, já nem sei quando, já nem sei onde.

"O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.
O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de São Vítor correndo nos sulcos de sua melancolia.
O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, aproximando-me assim cada vez mais da restolhada matinal dos pardais, esses velhacos que, por muito que se afastem, regressam sempre à minha vida.
Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala pouse aqui, por ser de cal.
" - Eugénio de Andrade
(Mais info aqui.) JRP
 

terça-feira, setembro 21, 2004
  Um equinócio extraterrestre.
O Porto Oriental visto do Monte da Virgem, no final de Fevereiro de 2004 (Que frio...). Que faria eu por lá?
Comandante Zoid - Aproximação ao planeta Terra. Aviso base XYT2, aproximação ao planeta Terra.
Base XYT2 - Fazer reconhecimento, repito, fazer reconhecimento.
Comandante Zoid - Ligada a S4X e reconhecimento a ser executado.
Base XYT2 - Resultados?
Comandante Zoid - Detecção de avaria na S4X. A máquina parece ter sido enviada para o futuro. Captação com imagens de equipamentos avançadíssimos... não compreendo.
Base XYT2 - Tomaram a Espaçolina?
Camandante Zoid - Tomamos todos. Não entendo. Não é este o planeta Terra? Que superfície sobrevoamos?
Base XYT2 - Dá pelo nome de Porto, cidade do Porto. Os apontamentos tirados pelos nossos peritos de Andrómeda revelam uma cidade de um país atrasado, da cauda de um continente do planeta Terra...
Comandante Zoid - Teremos viajado para o futuro? A descrição não condiz com os resultados da S4X!
Base XYT2 - Ordem imediata de regresso a casa. O Planeta Dalila vos aguarda. Abandonem o local, repito, abandonem o local. Os vossos índices atingem patamares perigosos. Estamos a perder o contacto...
Comandante Zoid - A nave não obedece. Força de atracção imensa. Perdemos rapidamente o comboio para o espaço sideral... escuto, Base XYT2, escuto... vejo pontes fantásticas, um estádio soberbo, comboios e metro, um rio e parques... escuto, Base XYT2, escuto e repito, a atracção é imensa...
Base XYT2 - (em Off) Ninguém jamais poderá encontrar destroços ou então tudo poderá ruir. Eliminando o Zoid será, afinal, apenas mais um perdido nas margens do tempo. Ordem interna imediata de auto-destruição da nave enviada. Já! JRP
 

segunda-feira, setembro 20, 2004
  O último dia do Verão.
A ensonada Miragaia respirando os últimos instantes do Verão, como nós a vimos, no passado Sábado.
Parece tudo filmado em câmara lenta aqui, de onde eu espreito, no Cidral de Cima, em pleno Monte dos Judeus, em Miragaia, no Porto, no Mundo, no Universo.
O Douro passa devagar e é vagarosamente que os ramos da árvore agitam a sombra negra que me protege, enquanto a vida, também ela morosa e pausada, desfalece ao ritmo suave da queda da primeira folha.
São Pedro conta paulatinamente os segundos que faltam para o fim estival, do topo da sua igreja que celestialmente contrasta a cor dos seus azulejos com o firmamento. Mas são as cores áureas, ocres e até palidamente garridas, sustentadas pelo verde harmónico dos plátanos das Virtudes, que fixam a retina do meu olhar e agarram o último suspiro quente do Verão.
Este tempo emperrado e encravado é subitamente acelerado pelo barulho rápido da água que escorre sob as lajes graníticas, lembrando a presença do Rio Frio, no seu caminho reconciliador com o Douro.
Alguém, no alto da minha imaginação, de uma das muitas janelas quadradas que vejo, canta as palavras de um dos nossos:

«Pois mira, Gaia!» E, dizendo,
Da espada foi arrancar:
«Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»

Do estranho caso inda agora
Memória está a durar;
Gaia é o nome do castelo
Que ali Gaia fez queimar:

E dalém Doiro, dessa praia
Onde o barco ia aproar
Quando bradou - «Mira, Gaia?»
O rei que a vai degolar

Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem - Miragaia
Daquele fatal mirar.


E enquanto navego nas ondas inexistentes dos dois rios e viajo montado nas nuvens que não vislumbro, imagino Garrett escrevendo tais versos e o castelo de Gaia, na outra margem, observando aquela que de sempre o Mira. JRP
 

Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.
A Praça Nova está de volta!
Que trema o país...
Blog gerido por Jorge Ricardo Pinto (JRP) e Mário Bruno Pastor (MBP). Qualquer dúvida, insulto, comentário ou tentativa de extorsão, contactar: aliados.blog@portugalmail.pt

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