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Avenida dos Aliados
quinta-feira, setembro 09, 2004
  Aere perennius

A propósito de um dos enigmas da Avenida, alguns leitores, como Lino Gomes e João Medina, mostraram interesse em ler um pouco mais sobre a estátua equestre de D. Pedro IV e, muito especificamente, sobre os escudos que decoram as vertentes N e S do pedestal.
Essa emblemática estátua foi fundida em Bruxelas, por volta de 1860, pelo escultor francês Calmels e custou cerca de 30 contos de réis (30.000$000 réis), uma pequena fortuna para a época, tendo em conta que o rendimento mensal médio de um operário não atingiria os 6$000 réis. Grande parte destes custos foram pagos através de subscrição pública, pela burguesia da cidade, o que revela bem o poder económico do Porto, em meados do século XIX.
O motivo principal para a encomenda do monumento foi a celebração do trigésimo aniversário do desembarque liberal. Assim, no Verão de 1862 foi colocada em plena Praça Nova (depois Praça de D. Pedro e hoje Praça da Liberdade) a primeira pedra do pedestal. Contudo, a estátua só seria inaugurada em 1866, mais precisamente no dia 19 de Outubro, com a presença do rei D. Luís, neto do próprio D. Pedro IV.
O escudo frontal é igual à réplica que lá se encontra hoje, ou seja, representa as armas nacionais em escudo francês, muito ao gosto da época, coroadas por uma coroa ducal encimada por um dragão com as duas asas abertas. É verdade que a coroa foi partida e retirada durante uns tempos, mas por volta de 2001 foi recolocada, o problema é que desde então alguém teve a ideia acidental de partir o pescoço e a asa esquerda ao dragão...
Estátua equestre de D. Pedro IV, cerca de 1890
Nesta fotografia, podemos ver que os painéis do pedestal, esculpidos por Joaquim Antunes da Silva, são ainda em mármore. Mais tarde, seriam substituídos pelos actuais, em bronze.
Apesar de D. Pedro continuar igual a si, orgulhoso no seu uniforme de Caçadores Nº.5, entregando a Carta Constitucional ao Porto e ao país, o plano de fundo da praça é outro. Lá podemos ver a entrada para o velho Café Camanho, vizinho e sucessor dos ancestrais Suíço e Guichard, onde Alexandre Braga e Soares de Passos, Camilo e até Garrett passaram horas, se não dias, mastigando literatices menores e grandes literaturas, misturadas com ginjas de trago menos doce, anunciando certamente a tísica.
Sobre a estátua, ergue-se a torre e parte do telhado dos Congregados.
Estátua equestre de D. Pedro IV, Setembro de 2004
E nestes 100 anos, enquanto deixamos os fantasmas dos nossos autores a tertuliar pelo Guichard em torno da perenidade do bronze, houve um mundo inteiro que desabou e outro que se construiu. Nota-se que o dragão já não tem cabeça e o Camanho também já lá não está. No seu lugar ergueu-se o Imperial, hoje em dia meio atarantado pela velocidade que atravessa os seus vitrais Art Deco. MBP
 

quarta-feira, setembro 08, 2004
  Invictamente Marginal.
O Douro no caminho para a Foz na companhia da vigilante e sonolenta Miragaia, como nós a vimos ontem.
Nesta lenta queda para o anoitecer, observo de forma sensorial a vetusta e ocre Miragaia protegida pelo antigo e oitocentista Horto das Virtudes, onde espécies arbóreas exóticas sobrevivem setentrionalmente junto ao Douro.
Ali encaixada, usando a Alfândega como uma oriental burka em relação ao Rio, a meio caminho do arco de Edgar Cardoso que espreita, lá longe, junto à Foz, Miragaia pouco mira de onde está.
Sempre foi marginal este encantador recanto. Na Rua do Monte dos Judeus a toponímia ajuda-nos a perceber a exclusão pérfida que a maldita Muralha Fernandina agudizou. Para lá da Porta Nobre, o tempo não foi meigo para ela, com as cheias demoníacas e a saga avassaladora do movimento de transformação urbana que plantou, onde era praia, um ultrajante Muro das Lamentações.
Miragaia é hoje um tesouro guardado nas profundezas do vale do Rio Frio em que o Passeio das Virtudes tem a chave e o segredo para abrir a fechadura cerrada e praticamente inacessível do local onde um dia, em pleno século XV, aportaram uns arménios com os restos de Pantaleão...
E é aqui, por entre um olhar de relance para o Palácio das Sereias ou um desalentado suspiro pelo de Cristal que me deixo embalar pelas palavras redondas do poeta Firmino Mendes, escritas no Passeio da Foz, em Abril de 1998:

"A Marginal

Ao lado do rio faz-se a experiência de nunca estar só.
Caminha-se a favor do vento, das águas correntes e
de algumas aves perdidas dos portos.

Não me chames para o lado de dentro dos países nem
para fazer pousada na gruta secreta daquela montanha
coberta de amoras e forrada de líquenes.

Aqui, no passo lento de quem não tem certezas nem afectos
vou a caminho da foz. Chegam barcos, saem outros.
Brilha este lado das águas.

A sombra também caminha e só na distância das ondas
poderá estar o espelho brilhante que fixa a luz à terra
ou a chama ao fascínio." - Firmino Mendes

JRP
 

terça-feira, setembro 07, 2004
  Alph-Art.
Como sabem, a influência de Hergé em mim é absolutamente avassaladora. Acabo de terminar a leitura difícil e imperfeita do álbum incompleto do génio belga da BD, Tintin e a Alph-Art, finalmente editado pela Verbo, e reencontro-me também entre projectos, ideias, sonhos e inimizades inacabadas.
Enquanto me debato com as minhas próprias dúvidas e incertezas, visto a máscara de autor desaparecido tragicamente, à imagem de Hergé, nunca tendo, por isso, finalizado Tintin e a Alph-Art, e apresento de forma póstuma o post que deveria ter publicado no passado sábado:

O que eu nunca farei.

Projecto Almadino para uma Praça (B) a meio da Rua 31 de Janeiro(A). Desenho de Teodoro de Sousa Maldonado, em 1789, de um projecto nunca executado.
O sono, a preguiça e a falta de inspiração impedem-me de dissertar sobre a imagem. Limito-me, por isso, a deixar a minha mente percorrer o raciocínio tonto e confuso que me persegue.
Amanhã, que no fundo é já hoje, tentarei subir mais um degrau na escalada tortuosa a que me propus. Incontornavelmente, a vida é feita de projectos, muitos deles inacabados, como aquele que a imagem revela.
No final do século XVIII, lê-se na planta a intenção de construir uma ambiciosa praça quadrada no íngreme declive de 31 de Janeiro. Lá em cima, a Igreja de Santo Ildefonso (F), na altura defronte da antiga Capela da Senhora da Batalha (G) e ao lado da Rua de Santa Catarina (H), espreita desconfiada a execução da obra e pisca o olho, em tom sorrateiro, à sua amiga Torre dos Clérigos, que descansa ainda jovem do outro lado do vale do Rio da Vila.
Não restam dúvidas... perante um desafio importante, recordo-me de insucessos passados. Sou um optimista crónico.


Na verdade, não foi a minha morte, mas a falta de qualidade do post e a preguiça de o substituir condignamente que me impediram de o publicar.
Escondo-me agora na pele do imortal Georges Remi e publico a minha versão Alph-Art, também ela inacabada, ilógica e sensaborona, num acto claro de procura rápida de expurgar segredos, pecados e frustrações antigas, tal qual Hergé ao longo da sua obra.
Ah... se viver fosse tão fácil como escrever num blog... JRP
 

segunda-feira, setembro 06, 2004
  Aportar

Antes de continuarmos a viagem até ao dia 4 de Março de 1894, é importante esclarecer um dado importante sobre a Sagres e a navegabilidade do Douro. O POS explica-nos aqui nas Virtudes esta questão.
Agora vamos lá dar um salto até ao cais da Ribeira. É ainda Biel que nos mostra alguns guarda-chuvas abertos que em conjunto com o movimento das bandeiras denunciam uma meteorologia antagónica com o espírito do dia.
O navio que está atracado, com os seus dois olhos clássicos e supersticiosos, não transporta nenhuns mirmidões perdidos, traz a primeira pedra a depositar no monumento ao Infante D. Henrique.
A turba amontoa-se no cais para ver o lítico desembarque, ao fundo adivinha-se uma fanfarra.
O constitucionalismo em peso balança no passadiço improvisado e lá ao fundo, sobre o lado esquerdo, notam-se as duas chaminés de um vapor pesaroso, anunciando o século que se aproxima. MBP
 

Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.
A Praça Nova está de volta!
Que trema o país...
Blog gerido por Jorge Ricardo Pinto (JRP) e Mário Bruno Pastor (MBP). Qualquer dúvida, insulto, comentário ou tentativa de extorsão, contactar: aliados.blog@portugalmail.pt

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