Avenida dos Aliados
Algures numa outra viagem
Ainda a propósito
deste post do aliado
JRP, o leitor
Lino Gomes comentou que gostaria de ver o Douro novamente navegado pelos belos veleiros do passado. Não sei se a actual Sagres conseguiria subir até à Ribeira, o Creoula sei que consegue, já lá esteve há uma meia dúzia de anos. Infelizmente, não cheguei a fotografá-lo.
Mas há sempre outras fotografias, outros veleiros e outros tempos para pousarmos o olhar.

Esta é a velha corveta Sagres, prima ancestral da actual e homónima barca. Ao contrário da Sagres de hoje, que foi construída na Alemanha, a corveta que vemos na fotografia é portuguesa, foi construída em 1858 e esteve ao serviço até 1898.
Vêmo-la fundeada em frente ao cais de Miragaia, num instantâneo de Emílio Biel, captado na manhã do dia 4 de Março de 1894, aquando das festas do quinto centenário do nascimento do Infante D. Henrique.
Podemos apreciar o grande movimento de pessoas no cais e no Douro, estão todos a aguardar a chegada de um outro navio que traria a primeira pedra para o pedestal do monumento ao Infante D. Henrique, mesmo em frente ao mercado Ferreira Borges.
Muito curiosas, aquelas pessoas parecem respirar algo de festivo, indiferentes ao vento e à chuva ligeira que se fazia sentir nessa manhã. Indiferentes aos 110 anos que nos separam, indiferentes face a esta navegação misteriosa que protagonizam hoje na internet.
MBP
Despertares

Hoje acordei com a notícia que a biblioteca de Weimar estava a arder. Localizada mesmo ao lado da casa de Goethe, a biblioteca alojava parte do espólio do poeta e uma enorme colecção de edições raras de Fausto.
Mais tarde, já pela manhã fora, ouvi a notícia que o assalto de resgate à escola de Beslan havia começado. Os sequestradores dispararam contra crianças. Ao que tudo indica, um grupo de alunos que estava aprisionado no sinistro ginásio subterrâneo terá sido assassinado pelos terroristas.
Tudo isto é terrivelmente esmagador e o pior é saber que a única coisa diabólica que anda à solta somos nós, somos todos nós. E é precisamente por isso que não me apetece sair jamais da cama, apetece-me antes sair do mundo. Negociar a alma em troca de dois palmos sossegados num planeta descoberto esta semana.
MBP
Algures onde nunca viajei.

O Porto e o Douro no princípio da década de 70 do século XIX.
Podem não acreditar mas com frequência sonho, durante a noite, em visitá-lo noutra era.
Às vezes, quando acordo, recordo sonhos inteiros da noite passada em que deambulo sozinho pela cidade de outros tempos. Jamais me esquecerei de um sonho trepidante em que passei junto à demolida
Capela de Nossa Senhora da Batalha e penetrei para lá das Portas de Cimo de Vila, rumo ao Arco da Vandoma, num espaço intra-muralhas carregado de negrume e mistério ao bom jeito das arrepiantes séries inglesas de
Sherlock Holmes ou
Jack, o Estripador.
Por isso, hoje, antes de me deitar, preparo meticulosamente a noite de sono que se aproxima e coloco no
Avenida dos Aliados esta pérola do fotógrafo Domingos Alvão, desvendando o Porto oitocentista na sua versão mais ribeirinha.
Tanto mudou desde então. O apetite voraz da transformação urbana no século XX, tantas vezes exagerado e escusado, percebe-se sobretudo na ausência das pontes, actual imagem de marca da cidade, passados cerca de 140 anos. Mesmo a
Ponte Maria Pia, de 1877, a mais antiga das que resistem, é vaga notada, lá ao fundo
onde o Rio faz a curva.
O único abraço entre Porto e Gaia era, nesta altura, a longínqua Ponte Pênsil que delgadamente assegurava a transição entre as duas margens. Desta perspectiva, vejo o antigo Quarteirão dos Banhos, mesmo aqui na primeira curva, também ele devorado pelas transformações ocorridas com a construção do majestoso edifício da Alfândega e pelo acesso do comboio a partir de Campanhã, numa linha entretanto abandonadamente desactivada.
O ambiente enigmático e nebuloso é acentuado pelo número impressionante de barcos no Douro, auto-estrada privilegiada de outros tempos, sobretudo até à construção do dinâmico Porto de Leixões, na última década da centúria de oitocentos.
Lá ao fundo, no meu último piscar de olhos antes de me deitar, observo o antigo Seminário, em ruínas desde as Guerras Liberais, que hoje é sede do mítico Colégio dos Órfãos, que, no final daquele século, ali se viria a instalar após a saída da Cordoaria. O seu aspecto lúgubre, tenebroso e
sinistro permanece eterno aos nossos olhos, nas nossas palavras e nos nossos espíritos.
Enquanto olho para a cama aberta do meu quarto temo, em vez de um sonho, ter preparado um pesadelo...
JRP
Ainda hoje o ouço sem o ouvir.

O Sol, o Mar e a Foz do Douro, vistos da barra, no final de Julho de 2004.
Inevitavelmente, com a entrada rápida em Setembro, a sensação de fim acentua-se. Enquanto o Verão se escapa como areia por entre os dedos da minha mão, continuo perdido, como
antes, nas malhas do vento do Norte, experimentando a amplitude barométrica, ali mesmo, junto ao lugar onde o rio abraça o mar.
Do outro lado, lá longe, de onde vem a Nortada, o
Farol de Felgueiras aponta para o imenso azul do céu, na extremidade beligerante de um dos pontiagudos paredões da Foz. Daqui, o tacto afável de Cadouços ainda se sente, envolvido nos aromas marítimos do Atlântico.
É então aí que nunca sei se morri ou nasci, aguardando inerte a próxima vaga. Enquanto espero, recordo-me indistintamente de uns versos de um poeta da Invicta que li em incerto Verão:
(Nota prévia do autor: "
Na adolescência, o Mar da Foz do Douro entrava, durante as férias, no meu destino.")
Assim o mar. Ainda hoje o ouço sem o ouvir
na espuma como dantes nos paredões da Foz.
(«Cala-te» - ordenei-lhe mais tarde com outra voz.)
Mas aos vinte anos andava eu de penedo em penedo,
de praia em praia, de sol em sol, em busca do cofre
onde fechara este segredo,
agora finalmente revelado:
«não há vida nem morte,
mas um conjunto
de sonho,
futuro,
presente,
passado
- angústia de mesmo sem começar, tudo ter acabado há
muito.» -
José Gomes Ferreira
(Mais info
aqui)
JRP
P.S. – Ontem, um amigo de longa data, a quem dedico este post, exilado há muito na capital portuguesa, deu-me uma notícia extraordinária. Dada a sua partida em breve para terras gaulesas, espero que continue a matar saudades da Invicta por aqui. Parabéns, Rodrigo!
E, de novo, o Norte.

O cabo Finisterra, a Norte do meu Norte, como o vi contigo, no final de tarde de 24 de Agosto de 2004.
A existência de um sentimento setentrional na cidade Invicta, inigualável por qualquer outra latitude, já foi abordada nesta
Avenida dos Aliados.
Foi por aí que passeamos quando transcrevi o
poema de José Gomes Ferreira sobre a sua partida para a Noruega a partir do Porto, ou quando dissequei as
três vinhetas nórdicas do virtuoso Hergé, no álbum "A Ilha Negra" das Aventuras do Tintin, ou ainda quando lembrei as
palavras enevoadas do algarvio Roberto Nobre e a sua percepção da Cidade da Virgem, e, sobretudo, quando divaguei geograficamente sobre o
sentimento boreal que me assola junto ao Porto Atlântico dos finais de tarde onde há sempre partidas e chegadas, no meu caminho para casa.
Foi esse Porto, melancólico e marítimo, nocturno e intemporal, que encontrei nas palavras do extraordinário
José Rodrigues Miguéis:
"
Alfacinha, tenho um fraco pelo Porto desde que, menino, acompanhei a família na primeira jornada ao Norte e à Galiza. Ainda hoje, ao cabo de exílios e tormentas, ao ouvir alta noite as sereias dos vapores que cruzam o Hudson, me assalta a inexplicável nostalgia do Porto."
Foi esta
inexplicável nostalgia do Porto que senti profundamente ao ver, longínqua e altiva, aquela lança apontada no mar, numa das minhas muitas
jornadas à Galiza, onde em tempos o Homem julgou que a Terra terminava.
Daqui, alcancei o rodopio luminoso do farol e ouvi deliciado a sereia sedenta, através das sólidas rochas graníticas do confim, por entre o odor intenso a maresia agreste e o rubor facial quente e contrastante, aligeirado pelo acentuar gradual do soturno escurecer.
Aquela pequena embarcação, sozinha e isolada, desvia os meus olhos castanhos pelo azul profundo do fim do mundo e naufraga a minha mente nos entardeceres oceânicos da minha terra.
De novo, sinto-me no caminho de volta a casa.
JRP
Enigma 5.

Como prometido, continuamos a série de enigmas sobre a cidade do Porto, aguardando ansiosamente a vossa participação através da caixa de comentários.
Já tínhamos abordado no
Avenida dos Aliados o esquecimento a que foram votados os antigos cruzeiros do Porto e a sua importância para a leitura da cidade actual. Fizemo-lo para a Cruz do Largo da Ramadinha, o Senhor da Consolação (
aqui e
aqui), e para a Cruz do Largo do Padrão, o Senhor do Divino Amor e Almas (
aqui e
aqui). Hoje, é um cruzeiro seiscentista da Invicta que serve de inspiração para mais uma charada. Ora prestem atenção:
Estive na Rua da Coragem
e nunca na Golegã.
Para Oriente vi-te passar,
rumo à rima de amanhã.
Na Formiga sobre o Alpendre,
na travessa do descanso,
se o apanhares lá em baixo...
Então nunca mais te alcanço.
Duas respostas tens de dar
para saberes quem eu sou.
Onde foi que eu estive?
Onde será que eu estou?
JRP
P.S.- Através do A Baixa do Porto ficamos a saber de uma petição para salvar o cinema Águia D'Ouro. Para quem a quiser assinar o caminho é este. Eu já assinei!
O arco íngreme da Ponte.

A Ponte Maria Pia vista por mim no final de Maio de 2004, a partir da esquecida linha da Alfândega.
Já
aqui tinha falado da forma como as memórias do meu avô me transportam deliciosa e nostalgicamente para um Porto de outros tempos. Hoje, durante um prolongado jantar, encaminharam-me para próximo da ponte Maria Pia, ela que curiosamente tinha sido
aqui debatida durante a passada semana, na longínqua década de 30, através dos seus olhos profundos, onde a mágoa e a saudade são sempre ultrapassadas por uma gargalhada aberta de episódios absolutamente trágico-hilariantes.
Falou-me das traquinices de duas mãos cheias de amigos que, com sede de façanhas e aventuras, trepavam pelo arco da Ponte de Ferro, enquanto o
Zé da Ponte, guarda da linha, com casa do lado de Gaia, os apedrejava com a brita que sustentava os carris, procurando de forma hostil, sempre sem sucesso, desmotivar tal engenho.
No meio daquela horda de travessos, capazes das maiores tropelias, muito além da louca e suicida subida da ponte Maria Pia pelo arco, destacava-se o
Ernesto "Manquinho", cingido pela inata ausência de uma mão e dos dois pés.
Ernesto era um rapaz doente, que acabou tuberculoso, situação tão comum na densa São Victor de outros tempos, oriundo de uma família massacrada pelos contornos sinuosos da vida, com um irmão também ele problemático e mudo.
Ernesto, ainda que claramente limitado pela sua profunda deficiência física, não só se atirava para o Douro do tabuleiro inferior da ponte Luís I, como executava na perfeição a subida da ponte ferroviária, não com a técnica do meu avô e dos compinchas, mas através de uma arte própria, graças aos mínimos cravos de ferro da ponte, pelos quais, com uma destreza inigualável, trepava pela obra de Eiffel, condicionado ainda pelo concurso de pontaria do
Zé da Ponte. Ernesto, o meu avô e os restantes parceiros de brincadeira, visavam atingir de forma célere o "Monte do Seminário", de regresso a casa após os refrescantes mergulhos no Douro em Agostos bem mais quentes que este que acabamos de viver.
Desses dez temerários, só sobra o meu octogenário avô. O
Ernesto "Manquinho" morreu de tuberculose, numa ilha pequena da Rua de São Victor, agravada por uma valente sova de uns vizinhos de apelido
Nobre, por motivos que já ninguém lembra. Os outros, lentamente, um por um, têm partido para lá da Ponte e do Rio, para lá do Porto e da Vida.
Hoje, irónica e perpetuamente, descansam no
Prado do Repouso, ali mesmo junto à Ponte de todas as aventuras e proezas.
Não foi contudo nenhuma das subidas alienadas pelo arco de ferro da ponte Maria Pia que conduziram às suas despedidas. A louca fantasia das crianças, ao jeito criativo de
Enid Blyton, é sempre mais saudável que a tirana monotonia da rotina dos adultos.
JRP
Solução do enigma 4
Os nossos leitores
Alex e
Lino Gomes foram de facto rápidos e precisos na solução do enigma 4, contudo, aqui vai a solução completa.
A imagem apresentada no enigma 4 é um pormenor do painel oriental do pedestal da estátua equestre de D. Pedro IV, de autoria do escultor francês Calmels.
A estátua, que merecerá um post mais desenvolvido (nomeadamente para esclarecer o leitor
João Medina quanto à questão do restauro dos brasões), foi forjada em Bruxelas e inaugurada na antiga Praça Nova, actual Praça da Liberdade, no dia 19 de Outubro de 1866, sob a presença real de D. Luís I.
Os painéis originais eram em mármore, contudo, a erosão e algum vandalismo fizeram com que fosse necessário substitui-los por estas reproduções em bronze. Actualmente, os originais encontram-se algures (não faço ideia onde) no quartel da Praça da República.

Painel oriental do pedestal da estátua de D. Pedro IV
Observando o painel completo, podemos ver ao centro um homem envergando um uniforme de oficial militar que entrega uma pequena urna a um grupo de quatro homens à sua esquerda. Trata-se possivelmente do Conde de Campanhã que foi encarregado de entregar o coração do recém falecido D. Pedro IV à Câmara Municipal do Porto, os quatro homens que recebem a urna são membros do senado portuense.
À esquerda, temos o pormenor apresentado no enigma, onde vemos mais um elemento da Câmara Municipal do Porto e um oficial militar que cobre a rosto em pranto e tapa quase completamente uma terceira personagem. Atrás dos três homens está o pequeno sarcófago que irá alojar a urna (encontra-se hoje na Lapa, também no Porto), numa das faces do sarcófago vemos a inicial
P e o numeral
IV coroados; trata-se do monograma real de D. Pedro IV (
Petrvs IV)
Do lado direito do painel vemos ainda cinco soldados de infantaria e duas figuras populares: um homem cabisbaixo e triste e uma mulher de cabeça coberta que ergue o os olhos para o céu.
MBP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.