Avenida dos Aliados
Tudo é fresco, alegre e florido.

As muralhas ditas Fernandinas, do século XIV, vistas a partir da Serra do Pilar numa noite de Verão.
De partida para férias, não poderia deixar de escrever uma descrição interessante que encontrei do Porto Quinhentista. Foi escrita por Confalonieri, secretário do Núncio Apostólico em Lisboa, em 1594, quando aqui passou a caminho de Santiago de Compostela:
"
A cidade é pequena, muito linda, muitas hortas, fontes e dois mil fogos. Está cercada de muros, abundam os panos de linho a bom preço. O fio é branco e finíssimo. São os mais famosos do Reino. Os ares são saudáveis e os víveres baratos. Existem muitos mosteiros. A catedral do Porto é muito antiga embora não seja grande. Há muito pescado e barato. Tudo é fresco, alegre e florido."
Fresco, alegre e florido é como eu parto para férias. Vai ser difícil actualizar o
Avenida dos Aliados mas farei os possíveis. O regresso está para breve.
JRP
Enigma 3

Ora aqui vai o terceiro enigma. E a charada reza assim:
Sou casarão aprumado,
escondido e grandalhão.
Vivi na rua do óleo,
Agora sou pobre barão.
Tenho tiques de nobreza
e no jardim? A confusão...
Protejo sempre quem nos cura
e sou amigo do Damião. JRP
Lembrar os nossos. (11)

A Foz Velha, no Porto, vista a partir da Barra do Douro, 28 de Julho de 2004.
"Nas tardes amarelas da nortada,
uma toalha de areias ia entrando,
pela frincha da porta,
e nela o mecanismo do relógio-de-parede se dissolvia.
Chegava-nos o apito de um vapor,
a sair da barra,
e vinha o gato enroscar-se,
debaixo dos nossos pés.
Que sabíamos do Mundo,
na casinha baixa,
com as janelas emperradas,
na humidade de Fevereiro?
O bisavô ponteara redes,
o Tio Gervásio morrera afogado,
na sépia do retrato,
sobre
o antigo psiché." - Mário Cláudio
(mais info aqui). JRP
P.S. - Este vai para o meu caro amigo Tiago Duarte Silva que, lá longe na americana Rochester, tem visitado com saudades o Porto, através das linhas tortas do Avenida dos Aliados. Um abraço de um amigo de longa data!
Ainda o Enigma 2 e a portagem.

Na continuação da resolução do Enigma 2, fica aqui uma fotografia do primeiro quartel do século XX, de Domingos Alvão, em que podemos ver a antiga casa da portagem na Ponte Dom Luís (seta
azul).
Ao longe, distancia-se o eléctrico com destino à praça da Batalha, passeando-se em frente aos recheados edifícios da Avenida Vímara Peres, que, hoje em dia, estão abandonados, vazios, tristes e definhando.
Ao mesmo tempo, o desaparecido relógio da Sé vai contando lentamente os segundos e despertando as torres sineiras com precisão suíça, enquanto elas o aconchegam com vigor.
Brevemente, a mesma força inexorável do tempo e a sede da procura da pureza, conduzirão ao seu lamentável extermínio. Onde pára este relógio?
JRP
Aqui vai finalmente
a resposta ao
enigma 2.
A ficha apresentada na fotografia, com o valor de 1/2 centavo e a data de 1913 foi produzida pela administração da Ponte D. Luís I para pagar as portagens referentes ao cruzamento da ponte nos eléctricos da CCFP (
Companhia dos Caminhos de Ferro do Porto).
Os passageiros pagavam o bilhete normal para o eléctrico e, ao atravessar a ponte, teriam que desembolsar um acréscimo de 5 réis, que era a moeda de menor valor em circulação desde a década de 1880.
Com o 5 de Outubro, o sistema monetário português foi, como se sabe, alterado, tendo-se criado o Escudo, em Maio de 1911. O Decreto que criou o Escudo previa a emissão de pequenas moedas de 1/2 centavo, o equivalente aos antigos 5 réis. Contudo, em Junho de 1913, o chefe do governo, Afonso Costa, decidiu, por decreto, que os valores inferiores a 1 centavo deveriam ser eliminados, tornando a afixação de quaisquer preço em fracções de centavo ilegais. Este mesmo decreto (21 de Junho de 1913) determinou a abolição da portagem pedonal na Ponte D. Luís I, que era precisamente de 5 réis.
Assim, de Junho de 1913 em diante as pequenas moedas da monarquia de 5 réis (os valores superiores ainda circulavam) deixaram de ter curso legal. Para contornar este problema, a administração da ponte tinha duas soluções, a mais óbvia seria aumentar o custo das portagens para os passageiros de eléctrico para 1 centavo ou 10 réis, o que implicaria a duplicação do custo da portagem (medida impopular que traria consequências imprevisíveis); a segunda solução foi criar uma outra forma de pagamento através da emissão das fichas de 1/2 centavo que vimos no enigma 2.
A ficha tinha o diâmetro e o aspecto do anverso relativamente semelhante aos antigos 5 réis de D. Carlos e D. Manuel II e custava precisamente 5 réis. Inicialmente serviria exclusivamente para pagar a portagem dos eléctricos, contudo, há testemunhos que essas fichas entraram em circulação dentro da cidade do Porto e arredores, pelo menos em Vila Nova de Gaia eram aceites pelos comerciantes.
A inflação galopante que a I Guerra Mundial (1914-1918) gerou fez com que os 1/2 centavos da ponte deixassem rapidamente de ser utilizados e os aumentos acabaram mesmo por chegar.
Em 1920 as portagens da ponte foram definitivamente abolidas.
MBP
Fé.

A Igreja de Santo António vista a partir da Alameda das Antas, no Porto, sábado passado.
«Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; servirão também de luzeiros no firmamento dos céus, para iluminarem a Terra." E assim aconteceu.
Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a Terra, para presidirem ao dia e à noite e para separarem a luz das Trevas.» -
Livro do Génesis
E é assim que estamos... algures entre o céu e o inferno, entre a luz e as trevas.
Está a ser o pior arranque de época de sempre no meu clube. Hoje, olhando para trás, parece inadmissível que assim tenha sido. Tanto se falou na dificuldade em substituir Mourinho, na importância de escolher alguém que, apesar tarefa ciclópica de fazer esquecer o antecessor, pudesse fazer uma transição inteligente e acabamos por contratar alguém que, quer pelo discurso bizarro ("se quisessem o Mourinho, ficassem com ele." ou "o F.C.P joga muito lento"), quer pela incompreensão do perfil do clube (declarar à Rádio Renascença antecipadamente a dispensa de Maciel), quer pela conivência ou exigência da insultuosa venda de Pedro Mendes ou quer por medidas patéticas como obrigar campeões europeus a visionamentos de hora e meia de jogos do Chievo, mais parecia alguém escolhido pelos nossos adversários. Toda a vantagem que trazíamos da época passada, e que já parecia ameaçada pelas inevitáveis cedências de Deco e Ricardo Carvalho, foi por água abaixo.
Chega então o momento.
Ainda que seja difícil recuperar o tempo perdido, há indicações que nem tudo foi mau. A preparação física dos atletas foi aparentemente bem feita, à imagem do que costuma acontecer com as equipas italianas, e, indiscutivelmente, temos um bom plantel. Afinal temos ainda homens como Derlei, Carlos Alberto, Maniche, Costinha ou Baía e compramos jogadores como Diego, Quaresma, Seitaridis ou Postiga.
Desde o início que gostava que a aposta tivesse sido no Carlos Carvalhal, sobretudo pela semelhança com o anterior técnico, mas, neste momento, em que tudo indica que o Victor Fernandez já está contratado (parece até que já está definido desde a semana passada...), acredito que o catalão pode fazer um bom trabalho. Tem um currículo interessante em clubes como o Celta de Vigo e o Bétis, é um treinador jovem com garra, atitude e o conhecimento profundo do que é viver num lugar que se sente maltratado pelo macrocefalismo da capital, em grande parte odiado pelo resto do país e abusiva e permanentemente vilipendiado pelas arbitragens e pela manipulada comunicação social portuguesa.
Que Deus ilumine as escolhas do quem nos preside...
Temos que nos unir em torno do clube e não permitir que as vitórias do passado recente sejam uma fonte de derrotas no presente e esmagar deliciosamente os dois clubes circenses de Lisboa, como temos feito sucessivamente nos últimos anos.
JRP
P.S. - Enquanto observava encantado o céu, numa destas noites de Verão, a mais brilhante das estrelas revelou-me porque é que a secretária de Estado
Teresa Caeiro, está na
Secretaria de Estado das Artes e dos Espectáculos e não na
Secretaria de Estado da Defesa e dos Antigos Combatentes, como estava inicialmente previsto, ainda que seja neta de militares. Na verdade, o nosso primeiro-ministro Dr. Santana Lopes, num golpe de génio de última hora, descobriu que
Teresa Caeiro é ainda descendente directa de
Alberto Caeiro, heterónimo de
Fernando Pessoa, e terá inclusivamente afirmado:
"A Teté tem muito a ver com o bisavô. Gosta muito de ovelhas e até já guardou um rebanho quando era criança. Além disso, como o heterónimo não é hereditário, ela tem uma personalidade muito própria."
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.