Enigma 1

Vi-te junto à Porta,
Vi-te ao pé do drama,
De França veio aquele
que te fez a cama...
Agora que anda no ar uma onda de
Blogcharadas, resolvi também criar as minhas. Soam sempre um pouco infantis, mas como ainda gosto de Chupa Chups e de desenhos animados do "Dartacão", julgo adequado à minha idade mental.
Como não podia deixar de ser referem-se à "cidade mais extraordinária do Universo" (cito o vizinho e amigo
POS). Sigam as palavras sibilinas da charada através dos contornos da imagem e deixem as respostas na caixa de comentários, por favor.
JRP
Mais uma vez, Pátria.
Que bom ver a
Avenida assim... cheia, movimentada, viva!A alegria é tal que, do fundo do meu entusiasmo, declamo bem alto, virado para o nosso Garrett, um poema épico do vianense
António Manuel do Couto Viana:
"
Loa ao Porto
Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
O corpo amuralhado de granito,
Cabelo d'água, à névoa, ao vento, exposto,
Face esculpida em grito.
Braços de ferro, arqueados, desmedidos,
Sobre o fluir dos barcos e do barro.
E um rumor antigo
Na voz das tuas ruas e mercados.
Vestes de escuro e enfeitas-te de luzes
Antes do Sol perder seu oiro pálido.
E das torres com sinos e com cruzes
Acenas ao mar largo.
Bulícios de cafés (há mais de mil)
Entornam-te nas veias graça e fogo.
E o lírico torpor dos teus jardins
Suspiros e repouso.
Que impulso de dizer-te pátria, Porto:
Coração, não de Pedro, mas de pedra
Com sangue fértil, vinho generoso
A gerar alma e terra."
JRP
Escadaria.

Edifício da Câmara Municipal do Porto, fotografado por Bomfim Barreiros, por volta de 1950.
Tenho assistido, com bastante interesse e alguma preocupação, à discussão que se tem verificado em torno das possíveis transformações na Avenida dos Aliados, na Praça General Humberto Delgado e na Praça da Liberdade, por essa blogosfera fora, em particular no sempre interessante blog
A Baixa do Porto e no
JN, através das palavras sábias de Jorge Vilas.
Admito que tenho algumas dificuldades em entender certas propostas, sobretudo tendo em conta os interesses económicos da Baixa e o seu percurso histórico, base sobre a qual qualquer estudo ou projecto deve, na minha opinião, incontornavelmente partir. Para isso e assumindo algum pretensiosismo, aconselho a leitura do livro "
A Ponte e a Avenida, contradições urbanísticas no centro histórico do Porto", editado pela
CMP, em 2001. Digo isto porque me parece que muitas das propostas e ideias não assentam em estudos prévios, em lógicas e dinâmicas estudadas, nem em raciocínios apresentados num passado pouco longínquo, mas em decisões espontâneas, sem ideia de conjunto e com alguma sobranceria que a discussão pública deste tema tem aligeirado.
Esta questão do uso da história pode parecer antiquada, anacrónica e até impeditiva da transformação e do progresso mas aconselho a todos que assim pensam que imaginem um médico a fazer uma operação profunda a um doente, desconhecendo por absoluto o seu passado clínico, possíveis doenças ou más reacções a determinadas substâncias...
Creio, de facto, que este desrespeito pelos homens que construíram, ao longo dos anos, o Porto, à custa de muitos projectos e estudos, é parte do problema. Nós, por aqui, nesta
Avenida dos Aliados, temos tentado contribuir para que essa leitura do passado não seja olvidada como já o fizemos
aqui ou
aqui, entre tantas outras vezes, para este espaço central da nossa cidade.
Por isso, hoje, tentamos novamente ser úteis à discussão, apresentando uma fotografia de parte da Avenida nos seus primórdios. A fotografia ensina-nos a primeira versão do edifício da Câmara Municipal do Porto, cuja escadaria muitos reclamam que regresse. Tenho lido e ouvido repetidamente essa alusão a esta escadaria, substituída mais tarde pelas rampas de acesso que hoje ornamentam a base da fachada do edifício, sem que tenha visto fotografias ou imagens que ajudem o comum portuense a reconstruir a sua perspectiva passada ou a imaginar o seu aspecto no futuro.
Contudo, a fotografia não remete para a questão principal da discussão que, no meu entender, reside na pedonização da parte Norte da Avenida dos Aliados, Praça General Humberto Delgado. No meu ponto de vista, esta intervenção deveria realizar-se com verdadeira incidência na face oposta da Avenida, na Praça da Liberdade, em que o seu passado de lugar de discussão pública, por onde passaram homens como Camilo, Ortigão ou Junqueiro, entre outros, o seu antigo aspecto formal, de praça dominada pela gigantesca e arborizada placa central, e sua intensa lógica comercial das Ruas de 31 de Janeiro e dos Clérigos, a justificam em absoluto. Será o receio do regresso da antiga Praça Nova que fazia tremer Lisboa?
JRP
One Hundred Years.

Robert Smith visto por mim em Vilar de Mouros, Julho 2004
No mesmo dia em que o
Avenida dos Aliados comemorava 3 meses de existência, tive a oportunidade de ver ao vivo pela quarta vez a banda que mais me influenciou na juventude.
Para ser sincero, sempre me senti dividido entre dois mundos: o de
Morrissey e dos
Smiths, mais irónico e divertidamente dramático e o de
Robert Smith e dos
Cure, absolutamente intenso, navegando entre o obscuramente deprimido e o alegremente apaixonado.
No seu jeito de sempre, algures entre a ingenuidade e a perversidade de
Tadzio, de
Thomas Mann, e a inocência e depravação de
Dorian Gray, de
Oscar Wilde,
Robert Smith conduziu-me, ao longo de mais de duas horas, numa noite de puro prazer em que redescobri os caminhos incertos da minha saudosa adolescência. Na verdade, a banda inglesa foi minha companhia na puberdade, mas também nos meus primeiros anos de maioridade e continua, hoje em dia, a ser escolha segura no leitor de CDs semi avariado do meu automóvel.
Ontem, enquanto o via desfilar no palco, a sua eterna passerelle, no seu jeito "fiteiro" de menino mimado que sabe controlar a gigantesca horda que ainda hoje o segue, trouxe-me ao zénite da memória trilhos e sarilhos de um passado esquecido e à flor da minha pele sentimentos escondidos sob a epiderme.
Naquele momento, lembrei-me apenas de lhe dizer a palavra "obrigado". Apenas esta e mais nenhuma, gritando-a ao mundo.
Entre os genes dos meus pais, o colégio religioso da primária, os beijos apaixonados que troquei, os dolorosos e intensos jogos de futebol na escola secundária, os palcos sujos por onde circulei, os mapas que consultei e os livros que li, os Cure também me fizeram ser quem sou e são corpos microscópicos biológicos e circulantes no sangue vermelho que me mantém vivo.
Apenas me resta uma mágoa. Em cinco visitas ao nosso país, eu nunca os ter visto na minha cidade. Eles que são, para mim, a mais nórdica das bandas.
JRP