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Avenida dos Aliados
sexta-feira, julho 02, 2004
  Um dia serei eu o mar e a areia

a tudo quanto existe me hei-de unir

Hoje foi esse dia. Todos os Jardins ficaram tristes e eu entristeci-me com eles. A Sophia partiu, seria inútil tentar escrever mais uma linha que seja.
Mais tarde prestar-lhe-ei a devida homenagem, agora não consigo dizer mais nada.
Deixo apenas mais dois dos aéreos versos que ela escreveu e uma palavra de agradecimento que também não é minha. MBP

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar.



Obrigado, Sophia.
 

  Lembrar os nossos. (10)

Em certo Reino, à esquina do Planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Pais,
Há quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fora não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-me os ideias,
À falsa-fé, numa traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reais!

E, embora eu seja descendente, um ramo
Dessa árvore de Heróis que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo Ideal:

Nada me importa, País! seja meu Amo
O Carlos ou o Zé da T’resa… Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!


António Nobre

Lembrei-me deste soneto enquanto respondia a alguns comentários cá do avenida.
Anto escreveu estes versos em Coimbra, pouco depois de D. Luís ter morrido e D. Carlos lhe suceder directamente no trono.
Não foi preciso ler a Carta para perceber que esta sucessão foi absolutamente constitucional. Tal como o desalento do poeta, o nosso desalento de hoje também parece ser constitucionalíssimo. MBP
 

  Perguntas inocentes.
Na sequência de posts e comentários aos mesmos que têm ocorrido nesta Avenida dos Aliados, e sem intenção de deitar mais achas a esta fogueira, apetece-me partilhar convosco algumas perguntas que têm passeado pela minha cabeça nos últimos dias. Tenho evitado abordar muito o tema futebol, até porque informação sobre o Euro 2004 não falta, mas como o sentido das crónicas é quase sempre o mesmo, julgo que estas questões são para mim um bom aperitivo antes de um post que escreverei, findo o Euro.
Então, enquanto me passeio pela "nova" Ponte do Infante, grito bem alto as minhas interrogações, e marco um golo com a Ponte Dom Luís, mesmo ao ângulo...
1 - Afinal qual é a melhor selecção nacional e a mais que provável campeã europeia: a do Scolari que durou praticamente dois anos ou a do José Mourinho, pós primeiro jogo com a Grécia?

2 - É mais importante em termos internacionais e de orgulho nacional a mediática e badalada vitória futebolística ou a fabulosa e pouco falada impecável organização do evento?

3 - Porque é que sempre que tudo correu mal na selecção se apontou o dedo a Gilberto Madaíl e agora que tudo corre bem ninguém fala bem do presidente da Federação Portuguesa de Futebol com maior currículo de todos os tempos?

4 - Até que ponto é forte a macumba de Scolari que, ao longo do torneio, foi eliminando alguns dos principais adversários (Mostovoi, Rooney, indirectamente Nedved e, agora, Karagounis)?

5 - Porque é que quando jogadores como Ricardo Carvalho, Maniche e Deco são coroados como "Melhor em campo" ninguém dá particular relevo e quando o galáctico Figo, que já disse que não queria vir para a selecção se esta lhe tirasse prestígio ou que faz birra quando o tiram do jogo, ganha essa distinção, todos o aplaudem e destacam?

6 - O que terá originado o lapso da RTP que no spot publicitário à final apresentam o golo do Maniche contra a Holanda e, de seguida, aparece o Rui Costa a festejar como se fosse ele o autor do golo?

Tenho lido e, sobretudo, ouvido, em fóruns da TSF ou da Antena 1, tantos e tantos disparates, que, acima de tudo, era importante que muitos destes neo-patriotas lessem palavras como as do açoriano Vitorino Nemésio:

"Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável - claro! - um mínimo contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de prática." - Vitorino Nemésio.
(Mais info aqui). JRP
 

quinta-feira, julho 01, 2004
  Sou uma pessoa
que vê pouca televisão. Ultimamente tenho-me limitado apenas a assistir a alguns debates avulsos e aos jogos do Europeu. Terminado o jogo vou passear os meus cães, regresso a casa e deito-me.
A maior parte da informação noticiosa que recebo chega-me pelos jornais, pela rádio e pela internet. É por isso que até hoje não percebia lá muito bem um comentário que alguém deixou há dias num dos posts que escrevi.
O comentário dizia mais ou menos o seguinte: - é pena não saberem o que é uma festa verdadeiramente nacional. Isto a propósito do jogo em que Portugal eliminou a Inglaterra.
Apesar do leitor ter utilizado um plural absolutamente sectário, senti que aquilo me era dirigido… Pensei, fui pensando e continuei a pensar até verificar que não fazia a mais pequena ideia do que era isso de festa nacional (palavra de honra que a primeira coisa que me veio à cabeça foi um estranho borrão sépia com imagens da Exposição do Mundo Português, mas calculei que estivesse enganado e que percebera mal a mensagem original).
Hoje, durante o intervalo do miserável jogo entre a República Checa e a Grécia, mudei de canal para ver algumas notícias e apanhei as imagens e os comentários da festa da vitória da selecção nacional, ontem, contra a Holanda. De repente tudo se iluminou (e não foi o televisor), aquilo é que é uma festa nacional, aquilo é que é uma farra lusitana e eu não sabia o que era.
As pessoas que me conhecem sabem muito bem quais são os meus sentimentos sobre a selecção nacional, os que leram alguma das coisas que fui dizendo também devem ter uma ideia do que sinto e penso. Não preciso de explicar nada a ninguém, contudo, depois de ver a grande e verdadeira festa nacional decidi continuar a não saber o que aquilo é. E porquê? Porque não partilho daquilo, não me reconheço naquilo e até me sinto constrangido com aquilo.
Paciência, talvez se justifique assim esse tipo de sectarismo. Reconheço que não percebo nada de euforias nacionais ou patrioteiras e como tal devo ser marginalizado. Uns sabem muito sobre festas e outras coisas verdadeiramente nacionais. Os outros não sabem nada sobre isso e merecem ser expostos e identificados a dedo com toda a grosseria verdadeiramente nacional que lhes é devida. MBP

 

  A Cadeira Atrasada

Não temos, aliás, que nos surpreender com o que será Santana Lopes primeiro-ministro, porque ele antes de o ser, já o foi. Foi-o, com toda a convicção, num concurso de faz de conta, num programa de televisão chamado Cadeira do Poder, de Albarran, ganho aliás por Torres Couto.

José Pacheco Pereira, hoje n'O Público

É importante que se diga em voz alta aquilo que vai dentro do próprio PSD. Pacheco Pereira tem vindo a dizê-lo através de vários desabafos abruptos. Hoje, no Público, disse-o clara e racionalmente. Ou seja, tudo aquilo que está em causa e o que se poderá esperar de um governo chefiado por Santana Lopes.
As referências do passado político de Santanta (e nem foi necessário ir até aos vergonhosos dias do MDLP) deixam antever aquilo que se avizinha neste pobre país, que tanto se mobilizou em bandeiras, que acabou por se despregar completamente.

Uma das referências curriculares de Santana Lopes foi aquele programa da SIC, a Cadeira do Poder, o tal que era promovido através de pequenos excertos ficcionais, onde personalidades reais faziam involuntariamente de personagens em acontecimentos burlescos e ofensivos (António José Seguro que o diga). Parecendo um fait divers, esta nota é paradigmática, representa parte daquilo que nos espera, se não corrermos agora para eleições antecipadas.
E é por tudo isto que eu, mesmo me localizando bastante à esquerda de JPP, sinto que lhe devo um pouco de gratidão pela sua coragem e pela sua tanta lucidez. MBP
 

quarta-feira, junho 30, 2004
  Final
mente!
Mais uma noite histórica. Pela primeira vez a selecção nacional chegou a uma final. Não posso dizer que tenha sido um jogo particularmente sofrido, a Holanda não conseguiu ser um adversário à altura de uma meia final. Mas soube bem.
Mais uma vez (e pela penúltima vez este ano), parabéns! MBP
 

  Lembrar os nossos. (9)
Euro 2004 = Portugal = futebol = Holanda = Laranja = Durão = Europa = Comissão = Parlamento = Deputado = Vasco Graça Moura.
É sempre assim. Quando estou muito cansado, o meu cérebro funciona desta forma tortuosa, quase disléxica. A corrente surda e cega do meu pensamento desaguou-me no portuense Vasco Graça Moura que hoje é aqui evocado na Avenida dos Aliados. Que me perdoe o poeta pela intromissão abusiva da fotografia que ilustra como vi o Porto a partir da margem Sul, no princípio de Junho. Que me perdoem os leitores desta Avenida pela sinuosidade das minhas palavras e do meu raciocínio. Boa noite e até amanhã.

"Visto da margem sul do rio o Porto não explode
sob a tarde de Verão. A água reflecte
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco, sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma. É quando
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível mundo.

São estes sons de nada, estes voos que perpassam,
estas estrias da sombra de ninguém
sobre o curso do rio, como nuvens para esta hora, a
encrespar-lhe de leve a superfície.

Enquanto parte algum comboio atrasado,
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham,
quero um barco pequeno para a minha travessia,
para a minha chegada e para a minha partida,

para andar entre as margens ou seguir a corrente
até S.João da Foz ver as últimas gaivotas
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras
de mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da Lua na Cantareira e na Afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.
" - Vasco Graça Moura
(mais info aqui). JRP
 

segunda-feira, junho 28, 2004
  Ainda as Fontainhas.
A sorte de ter um avô cheio de saúde e absolutamente lúcido permite-me com frequência fazer viagens ao passado através das suas palavras nostálgicas e carregadas de saudade. Ainda ontem foi assim...
Por entre algumas gargalhadas sonoras, foi-me desfiando o novelo de memórias antigas em festejos sanjoaninos da década de 30 ou do tempo da II Guerra.
São sempre histórias suadas dos amigos tecelães ou do escritório onde trabalhava, de um sentimento profundo de revolta pela opressão do Estado anti-democrático ou negramente humorísticas de uma miséria alegre, por entre as ilhas de São Victor ou o pé descalço em Gomes Freire. Mas quase todas desaguam no Passeio das Fontainhas, em qualquer São João libertino, onde a distância entre a pândega e a embriaguez são proporcionais à escarpa entre a Alameda e o Douro lá em baixo.
Ontem, passeamos por amigos que já partiram que, entre uma meia lata (expressão do Porto Oriental para uma caneca de tinto) e uma isca num pão, construíam quadras e rimas sanjoaninas, depois da dureza profunda de um dia de labuta.
Peguei em papel e lápis e ousei transcrever as palavras cantadas que o meu avô soletrava sorrindo à mesa do jantar.

"Deus queira que o tempo traga
Aquele ar da sua graça
Diz que o São João de Braga
Que nos rogou uma praga
Para que a festa não se faça

São João és um Lapónio
Se saíres das Fontainhas
Pois São Pedro e Santo António
Estão levados do demónio
Por não terem tais festinhas

Siga avante a mocidade
Já que temos liberdade
De cantar a noite inteira
Vamos para as Fontainhas,
Ora toma Mariquinhas,
Tudo dança a Ramaldeira.

Este mundo são dois dias
Óh meu rico São João
Prolongai nossas folias
Leve o Diabo a Paixão
."

Se mais nada escrever nesta Avenida dos Aliados, só por isto já valeu a pena. Estas já não se perdem! Afinal são património intrínseco de um certo Porto, escrito e cantado há 70 anos atrás, em qualquer tasco manhoso da Praça da Alegria.
Sentem-se os ventos quentes de leste no hábil uso das palavras avante e liberdade. Pressente-se a rivalidade regional na alusão ao desdém dos outros santos e da referência a Braga.
Quando, na actualidade, se percebe a tentativa de "elitizar" o São João, através da sua passagem para outros espaços da cidade, como tem sido tentado nos últimos anos, ou da sua ligação a outras classes sociais, desfigurando o carácter operário do mesmo, compreende-se a angústia de um tal Belmiro Lima que, na longínqua década de 30 do século XX, já previa esse destino. Lapónios é o que eles são! JRP
 

Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.
A Praça Nova está de volta!
Que trema o país...
Blog gerido por Jorge Ricardo Pinto (JRP) e Mário Bruno Pastor (MBP). Qualquer dúvida, insulto, comentário ou tentativa de extorsão, contactar: aliados.blog@portugalmail.pt

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