Avenida dos Aliados
A noite mais longa.

Imagem da Fonte das Fontainhas, no século XIX, onde a cada 24 de Junho reside a genuína cascata sanjoanina.
O meu caro aliado
MBP e o amigo e virtuoso
POS praticamente já tudo disseram sobre a origem do feriado sanjoanino, em comentário ao
post anterior.
Assim sendo, pouco resta a acrescentar senão fazer um copy/paste do que já foi escrito que mais não foi do que o resultado de um referendo promovido pelo
Jornal de Notícias no princípio do século XX (1911) que oficializou o 24 de Junho como feriado portuense.
Desta forma, foi pedido aos leitores do diário portuense qual a data que pretendiam como feriado da cidade. Os resultados foram os seguintes:
24 de Junho, dia de São João, 6565 votos
1 de Maio, dia de São Pantaleão, 3076 votos
8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, 1975 votos
9 de Julho, dia da entrada do exército liberal no Porto após desembarque no Pampelido, 8 votos.
O resultado foi esclarecedor. O São João venceu de forma categórica (noutro post haveremos de discutir São Pantaleão e a sua importância para a cidade e o porquê de tão bom resultado).
A origem desta celebração é, tal qual já foi afirmado, muito anterior a qualquer ligação judaico-cristã, e era muito comum em diversos povos indo-europeus. Festejava-se a entrada do Verão com a presença do Solstício de Junho em que perpendicularmente o Sol atinge a latitude mais boreal, sobre o trópico de Câncer. Daqui até aproximadamente o Natal (21/22 Dezembro) os dias vão lentamente diminuindo de dimensão, comprovando as relações religiosas com os movimentos cósmicos.
Daí a provável oposição fogo/água que se verifica entre as labaredas das fogueiras e dos balões com a água das cascatas ou com a tradição do orvalho madrugador enquanto acalentador da fertilidade feminina. Por isso se espera que o Sol nasça, novo fogo perene na linha do horizonte.
O culto do fogo e a bênção da água são o caminho seguro entre olhares afrodisíacos que se negoceiam na noite de todos os aromas, do manjerico ao alho-porro, da sardinha assada ao suor proletário. Incontornavelmente, o São João está então carregado de volúpia desde o Passeio das Fontaínhas à antiga tradição da Alameda da Lapa, local importante de celebração Sanjoanina do século de oitocentos.
Entre o raiar quente de uma fogueira celeste e a chuva fria setentrional, aguardarei ansiosa e inquietamente até ao próximo São João.
JRP
Adelgaçar a Democracia
Tenho evitado quaisquer comentários de natureza política aqui na avenida, contudo, dada a situação actual, em que o Primeiro Ministro se encontra na eminência de abandonar o seu mandato e sussurra-se a probabilidade de Santana Lopes vir a ser o seu sucessor, sinto-me tentado a escrever algo.
Como não podia deixar de ser, Luís Delgado já começou a justificar a posição de Santana Lopes. Segundo aquele, o provável sucessor de Durão Barroso tem legitimidade democrática para ser nomeado Primeiro Ministro porque ganhou as eleições no maior município do país (Delgado diz
autarquia, como se deve dizer em jornalês).
Ou seja, independentemente de Santana Lopes não ser um membro da coligação, independentemente de Santana Lopes não ter nem formação profissional, nem académica para ocupar a chefia de qualquer governo e independentemente de Santana Lopes não ter sido eleito líder de qualquer partido, nem nunca ter concorrido a qualquer eleição legislativa, foi eleito presidente de uma grande câmara municipal e isso é o suficiente para que possa governar-nos a todos.
E é com este tipo de papismos retóricos que se alimentam os sectores mais inocentes da sociedade, levando-os a crer que no país das bandeiras e da união nacional tudo se compõe, porque uns senhores que sabem muito mais que nós já escolheram, já decidiram e repartiram em família o destino e o futuro de todos.
MBP
Rápido.

Ainda em fase de difícil actualização no
Avenida dos Aliados, dou por aqui um salto rápido para prometer um regresso em pleno para breve.
E esse São João? O meu foi vertente abaixo, tal qual uma cascata sanjoanina, em direcção ao Douro, onde nas suas margens a Europa marcou encontro. Como tenho pressa, ficam para amanhã algumas considerações sobre o fabuloso feriado tripeiro e como o
JN foi fundamental para a sua afirmação. Já agora, se não fosse o São João, que outro dia ou festividade deveria ser o do feriado municipal do Porto? Sugestões e respostas nos comentários, por favor.
Vá lá que ainda vou tendo algum tempo para espreitar o meu Porto. Haverá outro pôr-do-sol assim?
JRP
Meia Final
A História dos Europeus e dos Mundiais de futebol faz-se com jogos assim.
Foi muito renhido, muito duro, mas, mais uma vez, parabéns à selecção nacional!
MBP
Ainda o Santo
As origens das celebrações sanjoaninas são muito remotas. Toda a raiz da festa se enquadra no contexto das celebrações pagãs do solstício de verão. Esta tradição foi-se refazendo ao longo dos séculos. Tal como tantas outras cerimónias da antiguidade, foi-se adaptando às conjunturas e passou a integrar-se no calendário religioso.

Aqui, neste retrato pintado por Caravaggio, São João Baptista surge revolucionário, completamente fora dos cânones, parecendo mais um fauno do que um santo.
MBP
Falta um dia para celebrar
Na minha galeria hagiográfica este João não está em primeiro lugar. Escolheria sempre, se a questão se levantasse nesses termos, o Apóstolo e Evangelista. De preferência na iconografia velha e memoranda de centenário, exilado em Éfaso, reinterpretando a Paixão que acompanhara de muito perto.
Mas o nosso santo é o outro, o Baptista. Muito mais selvagem e anacorético. A devorar gafanhotos nas margens do Jordão, envergando peles sobre o corpo macerado e a revelar, com a sua voz profética, a chegada do Messias.

Hei-lo aqui, estático e gótico, um pouco cabisbaixo, neste pormenor do Tríptico de Donne, de Hans Memlinc. Ao fundo, de gorro vermelho, alguém que não foi convidado observa a cena que não partilhei convosco e que se desenrola no painel central.
Amanhã o nosso painel central será o próprio São João, estão todos convidados.
MBP
Lembrar os nossos. (8)
Como já devem ter reparado, a frequência de posts tem diminuído um pouco nos últimos dias, consequência de alguns afazeres inadiáveis.
A pressa, aliás, continua. Tenho que ir rapidamente almoçar.
Mas não vou embora sem deixar que a minha veia sibilina e perniciosa, cheia de má vontade e bairrismo bacoco, dê um ar da sua graça.
Se, em
post anterior, usei as palavras sábias de Ramalho Ortigão, agora deixo-vos com a sapiência de Eça de Queirós, também ele oriundo do Douro Litoral.
"
Lisboa come com pretensões francesas e fantasistas: logo o Porto se afoga, cada vez mais, no chorume da velha cozinha portuguesa, e abraça-se, como a um estandarte, à travessa do cozido..." -
Eça de Queirós,
Uma Campanha Alegre, 1872.
Hummm... estou cheio de larica. Tenho que velozmente sentir aquele sabor intenso a azeite e alho, que percorre em curvas aromáticas as ruas da Invicta, a partir das chaminés em labuta de numerosos cafés e restaurantes, na hora do pico do Sol. E logo hoje, Solstício de Verão.
JRP
Quartos
de final.
Custou muito, sofreu-se e foi necessário sabotar o telemóvel do Gilberto Madaíl, para o impedir de falar com Scolari sobre convocados. Mas valeu a pena.
Parabéns à Selecção por ter conseguido o mais difícil.
MBP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.