Dois meses depois.

"
O sotaque do Porto é também um léxico especial (carapins, cimbalino, morcão, trengo, bufar, andrade...) e é, sobretudo, o uso franco e desenvolvido da Língua Portuguesa." -
Arnaldo Saraiva
Ontem, o
Avenida dos Aliados celebrou dois meses de existência. Obrigado a todos que por aqui passam diariamente comentando, criticando ou simplesmente acompanhando as nossas divagações.
Temos tentado ser uma janela sobre o Porto. Ainda que me pareça que faltam mais olhares acutilantes sobre a cidade, não temos a pretensão de ser a única fenda aberta por onde se pode perscrutar a Invicta. Esta janela é a nossa, carregada de subjectividades apaixonadas. Por isso, queremos, acima de tudo, ser o sotaque do Porto onde a memória da cidade e o gosto pela escrita se fundem.
JRP
Para os Eurocépticos.

Ainda há pouco, a Praça da Ribeira estava assim.
O futebol tem enchido as ruas da Invicta de alegria. Pela Ribeira naveguei entre Gregos, Suecos, Espanhóis, Alemães, Holandeses,... num fair-play assinalável em que o hino português ou a "Marselhesa" são entoados por todos com o mesmo espírito de patriotismo. O comércio fervilha e os sorrisos balançam desmesurados por entre as ruelas graníticas junto ao Douro, em plena noite de quarta-feira.
Eu adoro o futebol!
JRP
P.S. - Esse parolo brasileiro demorou a perceber que o melhor central do planeta e um dos cinco melhores playmakers do futebol mundial não podiam ficar no banco de uma selecção de um país periférico da Europa. Agora, muito deve ele lamentar a ausência do guarda-redes Campeão da Europa de Clubes e de um centro campista com a categoria do Pedro Mendes. No jogo com a Espanha, veremos se não tenho razão.
Laranja.

A simpatia de um amigo de longa data proporcionou-me a participação num dos jogos mais desejados da primeira fase do Euro, o Alemanha - Holanda.
Acabei por me sentir um estrangeiro na minha casa. O meu Dragão parecia uma enorme Laranjeira carregada de frutos que ofuscavam, com a sua cor intensa, o azul profundo do estádio. Depois de um jogo animado com uma plateia entusiasmante e da estreia na linha Trindade-Dragão, acompanhei a lava laranja, que jorrava do vulcão draconiano, pelas ruas da Invicta. Que final de tarde magnífico... Um sentimento cosmopolita dentro da minha cidade com sabor a
Trinaranjus.
Dizem as más linguas que quando o Rui Rio viu esta imagem terá pensado que finalmente os azuis e brancos se teriam vergado à sua interminável sapiência. E antes de se deitar, às tardias 22h, ainda comentou com a esposa:
- Abre lá a garrafa de
Fastio. Em momentos como este, sabe bem fazer umas loucuras. Hoje não há água da torneira para ninguém cá em casa - comentou, o mãos largas, bem humorado.
JRP
Largo do Padrão das Almas.

Planta Redonda do Porto de 1813, por Balck.
O extracto cartográfico é retirado da mais antiga planta da cidade e representa uma área que, hoje em dia, é vulgarmente designada como
São Lázaro. Nela podemos constatar a presença do rectângulo onde, 20 anos mais tarde, se iria construir o Jardim de São Lázaro, após o Cerco do Porto. De entre as nótulas toponímicas salienta-se uma Rua Direita que, na altura, correspondia à actual Rua de Santo Ildefonso.
Todo este espaço é consequência de um dos raios que divergem do núcleo urbano medieval do Porto, construído ao longo de séculos através de morosos e significativos processos, contrários à actual rapidez e efemeridade da vida. Um desses processos tem origem na estrada que saía do Porto em direcção a Arrifana do Sousa (Penafiel) e que era marcada pela presença de um conjunto de cruzeiros que ofereciam protecção aos viajantes. Já aludimos aqui, no
Avenida dos Aliados, a um destes cruzeiros que fazia parte deste trajecto, o
Senhor da Consolação (
aqui e
aqui), e que hoje está abandonado num canto do cemitério do Bonfim.
Palavras exageradas as minhas... não está abandonado. Está acompanhado pelo
Senhor do Divino Amor e Almas, também ele parte desse percurso antigo que, no canto imediato do cemitério, jaz inerte e esquecido.
Este cruzeiro, o mesmo da fotografia do post
X marks the spot, estava localizado no Largo do Padrão, lugar este que figura no centro do extracto da planta do Porto acima colocada.
Em 1813, o Largo do Padrão era ainda um local rústico, mas que já funcionava como um nó importante de divergência de arruamentos. Essa característica foi adensada pelas transformações oitocentistas do espaço, não só nas regularizações e melhoramentos mas também na abertura da Rua Duqueza de Bragança, actual D. João IV.
Tal como no
Largo da Ramadinha (que figura na imagem com o número 26), julgo que é incompreensível a degradação patrimonial que lhe foi incutida, primeiro com a retirada do cruzeiro em 1869, e depois com todas as adulterações ao longo do século XX, que incluíram a remoção de uma antiga fonte no gaveto entre a Rua de Coelho Neto e a de Santo Ildefonso.
Quando passo ao volante naquele Largo, amaldiçoo-me! Como é que nos deixamos dominar pela máquina? Como é que permitimos que espaços como aquele se transformassem num canal de escoamento de Renaults, Opeis, Toyotas...? Como é que pouco ou nada fazemos para o mudar e valorizar o que é nosso? Como é que deixamos o Senhor da Consolação, do século XV, e o Senhor do Divino Amor e Almas, do século XVI, desamparados, desprotegidos e desterritorializados?
Antes de me deitar, faço birra. Beicinho para fora e bochechas apoiadas nas palmas das minhas mãos. É então que murmuro sozinho: "Eu quero o cruzeiro no largo". Eu consigo ser mesmo insuportavelmente pueril.
JRP
O Porto é uma festa.

"
Se, na juventude, você teve a sorte de viver na cidade do Porto, ela o acompanhará sempre até ao fim da sua vida, vá você para onde for, porque o Porto é uma festa móvel." -
Ernest Hemingway,
Paris é uma festa (adaptado)
O Porto coloriu-se nestes dias. A festa do
Euro e a chegada de estrangeiros
cosmopolitizou uma cidade intrinsecamente fechada.
Neste fim-de-semana, algures entre Paris e a
Fiesta de San Firmin, o Porto pareceu-me passear no fio da navalha, muito próximo da euforia total, perdido na próxima esquina onde uma paixão se desenvolve.
Ainda que estranho, o Porto deliciou-me como uma mão-cheia de cerejas.
JRP
Pedido de Desculpa
às Selecções e respectivos adeptos da Suíça e da Croácia, com um abraço muito especial a Vogel, que não merecia o que lhe fizeram.
MBP
