Avenida dos Aliados
Passatempo

Identifique os muitos paralelismos.
MBP
X marks the spot.

Ao passar ontem pela Cordoaria e espreitando as obras que decorrem no tramo final (ou inicial?) da Rua da Restauração, reparei que o antigo gradeamento de ferro foi retirado. No final do século XIX, entre o Largo do Viriato e o Jardim da Cordoaria, foi colocado o referido gradeamento, no lado oposto ao do Hospital de Santo António, com a estranha justificação de evitar a sucessão de suicídios que ali supostamente se haviam verificado.
A grade foi ficando... lentamente ganhou a coloração avermelhada da ferrugem que se cruzava com o esverdeado da pintura, muito adequada ao momento eufórico nacional que se vive. Não deixa, por isso, de ser curioso que tenha sido por esta altura que se tenha retirado aquele elemento que, mais do que uma barreira, funcionava também como decoração urbana.
Por falar em remoções despropositadas, aqui fica mais uma das importantíssimas peças perdidas do Porto que ajudam a explicar a morfologia urbana dos nossos lugares. E já agora, à imagem do que sucedeu com o
Senhor da Consolação neste post
aqui, deixem as vossas sugestões sobre o lugar em questão na caixa dos comentários.
JRP
Lembrar os nossos. (7)
Não resisto a colocar este excerto de Ramalho Ortigão. Uns dirão que fomenta a discórdia e a rivalidade inócua entre diferentes regiões do país. Eu, ignóbil personagem mesquinha, adoro o texto. Para mim, esta acicatez bem humorada só nos fortalece a todos.
"
(O portuense) não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade.
Da autoridade vinga-se, desprezando-a.
Da polícia vinga-se, resistindo-lhe.
De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiada bizarria" -
Ramalho Ortigão
(mais info
aqui).
JRP
Voto de Pesar
Conduzia em plena VCI, acompanhando uma série de notícias estranhas. Uma catadupa de ruído até ao desenlace final, seco e demasiado directo: - Chega-nos a informação que o Professor Sousa Franco acaba de morrer.
Magoa-me viver num país que mata desta forma aqueles que lhe são mais dedicados.
MBP
Vénus.

Montmartre, Paris, 1887, Vincent Van Gogh
O triangular mistério da Praça Carlos Alberto ouviu-te cantar e desceu suavemente pelos teus cabelos, passeando-se nervoso pelos teus lábios iluminados.
Lá em cima, Sol e Vénus amavam-se platonicamente num verso perdido de
Wilde, enquanto eu te bruscamente eclipsava, invadindo-te com a minha sombra.
Agora sim, entendo o significado cósmico da sonora
Jupiter Crash. Nem mesmo a gravidade nos separará.
JRP
Ocidental Praia Lusitana.
A auto-estima dos portugueses é uma coisa assombrosa. Basta um brasileiro com tiques ditatoriais nos pedir para pormos a bandeira nacional na janela que imediatamente desperta em todos nós um profundo sentido patriótico. Esse sentimento é de tal forma intenso que ainda retribuímos com um salário principesco.
No Brasil, a situação é acompanhada com curiosidade. Ainda ontem, no Palácio do Planalto em Brasília, um alto funcionário governamental brasileiro comentava: "Isso foi a paga pelo Militão... espera inté ocês ver a vingança pelo Roberto Leal".
Segundo apurou o
Avenida dos Aliados, o cerebral Ministério da Defesa Nacional já contactou Gilberto Gil e Caetano Veloso para que nos venham ensinar a cantar "A Portuguesa" a tempo da inauguração do Euro 2004.
JRP
Largo da Ramadinha.
Foi a partir da janela do antiquíssimo
Café Tijuca que vi, no passado Domingo, a corrente humana que, nos dias que correm, vem frequentando a baixa. Sentei-me quedo e calado junto ao vidro e deixei-me empurrar pelo movimento descendente até Santa Catarina, Passos Manuel abaixo.
O Porto Central anda diferente... senti-o na passada semana quando, em passeio pela Ribeira na companhia do aliado
PCS, vi as esplanadas da Praça do Cubo repletas até horas menos comuns; constato-o nos espaços de encontro da baixa que se deixam ficar abertos até tarde como o café do
Rivoli, a
nova Brasileira, o
Café di Roma ou o renovado
Guarany; percebo-o através das multidões que saem aos magotes do Coliseu ou do Teatro Sá da Bandeira após as actuações teatrais.
Mas foi depois do
Tijuca e de Santa Catarina que passei pelo vetusto Largo da Ramadinha, velho recanto tripeiro, que entre os Poveiros e o oitocentista Jardim de São Lázaro vai sobrevivendo atulhado de carros, lixo e esquecimento. Pois bem, foi ali naquele amargurado largo que, durante séculos, o cruzeiro do
post anterior repousou tranquilo até que, em 1869, foi retirado do seu lugar de origem para o cemitério do Bonfim. Lá, o cruzeiro do Senhor da Consolação, olvidado por todos, serve causa nobre... um dos seus braços ostenta, por vezes, a mangueira da empregada das limpezas do cemitério.
Sempre que posso vou vê-lo triste, olhando para o ocaso, dando-lhe a ele o
Consolo para o qual foi feito. Pobre sina a da cruz florida gótica que, em tempos idos, sustentava a Via-Sacra para Oriente, através da velha "Estrada do Pão", em direcção a Valongo e Arrifana do Sousa (actual Penafiel).
É tristeza, mas também vergonha, o que sinto quando, passeando pela vizinha Galiza, por Pontevedra, Ourense ou Santiago, aprecio o arranjo das tripas urbanas e essa nobre e descomplexada paixão pelo património histórico, quer seja religioso ou não.
Antes de me deitar, por entre o pestanejar sonolento de um dia cansativo, imagino o Largo da Ramadinha sem carros, nem lixo, regularizado e arborizado, com o cruzeiro no seu centro. Provavelmente, já estarei a sonhar...
JRP
Cruzeiro.

O tardio da hora e a preguiça de fim-de-semana impedem-me de dissertar um pouco sobre este cruzeiro portuense. Amanhã, entrando no ritmo semanal de trabalho, abordarei a história em torno desta peça belíssima que, até meados do século de oitocentos, ornamentava um dos espaços centrais da nossa cidade.
Entretanto, entretenham-se a adivinhar o dito local. Posso apenas adiantar que este cruzeiro esteve lá durante cerca de 400 anos. Deixem as sugestões nos comentários!
JRP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.