Avenida dos Aliados
Sempre atrasado...

Até o Porto marginal tem este encanto.
É aqui que percebo que a verdade não existe. O belo e o horrendo passeiam de mãos dadas numa Avenida das Tílias, algures entre a "Unten den Linden" de Berlin e a do nosso Palácio de Cristal.
A objectividade partiu no comboio que acabou de apitar, cuja velocidade extrema superou a rapidez do meu flash.
Tão delirantemente ilusório como a bola de ténis do
Blow Up, o Porto é mais sincero visto do lado de cá da ponte. E, ainda assim, tão distante.
JRP
Eis o postigo cerrado
A luz é muito ténue, acentua as distâncias e indefine os contornos exactos dos limites.

Do outro lado, sobre o Douro, adivinham-se as antigas embarcações que eram postas de quarentena e meditavam sobre as margens, antes de lhes desgradearem a entrada para a cidade.
MBP
N
de Norte, outra vez.
O tema explorado nos últimos dois posts (
aqui e
aqui) cruza-se com outra matéria também calcorreada amiúde no
Avenida dos Aliados: as
Aventuras de Tintin.
Desta vez não vou explorar as questões psicanalíticas de Hergé, nem os contornos de intriga política internacional, apenas a sensação de Norte exprimida através do traço de Georges Remi que, à imagem da fotografia do
post anterior, revela os mesmos sentimentos de distância, ausência e estoicismo que
José Gomes Ferreira desvenda através das palavras do poema
aqui transcrito.
A visita de Tintin à Escócia, no álbum
A Ilha Negra, transforma-se no cenário perfeito para ilustrar esse sentimento arrastado pelo vento setentrional, através dos soturnos e rudes caminhos de uma pequena aldeia de pescadores,
Kiltoch.
Não é só a intensa coloração azul, nem a heróica infinitude marítima, mas também
um Castelo que só dispara tiros de ondas, o aroma a maresia que se sente, a pureza e brutalidade das rochas firmes ou a distinção de um iluminado farol coberto por lençóis de nuvens cinzentas carregadas de água e de ilusão. É sobretudo essa indescritível sensação de estarmos num lugar que nos pertence e ainda assim sempre longe de casa...
Gosto de acreditar que as palavras que Paul Morley utilizou para definir a genial banda de Manchester,
New Order, servem também para me definir a mim:
"(Ele vem) do Norte; do Norte de todo o lugar incluindo do próprio Norte". Pobre vaidade vã, tão ilusória como as nuvens carregadas de uma boreal cidade costeira.
JRP
Norte.
Porto de Leixões visto a partir da praia junto ao Castelo do Queijo, Maio 2003
Nas distantes e elevadas latitudes Norte, o mundo parece-me sempre assim.
Algures em Brest, Gdansk, Rostock ou Liverpool, o movimentado porto é lança apontada no mar e desenho afiado entre o céu e a água.
Há, para mim, um eterno mistério nestes lugares. Um sentimento demasiado próximo de uma chegada que não vai acontecer. Nesta altura, o vento do Norte crava um arrepio no corpo, adoçado pela sonoridade épica das ondas nas rochas.
Nestes finais de tarde, que demoram a cada volta do relógio, deixo-me ficar junto ao Atlântico e aguardo o primeiro clarão do farol. Como se cada uma das vezes que a sua luz me atravessa, em vez de auxiliar os navios esquecidos no mar, me encaminhasse a mim no caminho para casa.
E nunca me engana. E nunca se atrasa.
JRP
Lembrar os nossos. (6)
Como centésimo post, 3000 e muitas entradas depois, em menos de dois meses de
Avenida dos Aliados, aqui fica mais um poema evocativo da nossa cidade, retirado da obra de um portuense. Este vai sobretudo para o meu caro amigo aliado
MBP, com quem mais do que ninguém tenho partilhado esta cyber viagem, que gentilmente me ofereceu, no dia de ontem, o livro de onde retirei o seguinte poema.
(Nota prévia do autor: "
O mesmo cenário do Rio Douro, anos depois, quando parti para a Noruega num navio de carga")
"
Nem todas as mãos no cais tinham corpo
algumas até já lá estavam há muito agarradas
ao silêncio que as gelou
- outras caídas no rio
afagavam o casco,
braços de pedras magoadas,
murmúrio de dedos,
lenços de maresia,
Cabedelo,
a Barra
com um Castelo que só dispara tiros de ondas
Mar aberto
com a terra cada vez mais distante e fluida
- enquanto o capitão norueguês
de alegria gorda
dançava com ferocidade de viquingue bêbado
o destino
de suspeitar
que me abria o destino
com o riso-navalha
do rumor das veias.
Em torno nas vagas
Ainda algumas mãos caídas no cais das águas,
invenções confusas,
seguravam o navio,
nadavam,
medusas,
tentavam retê-lo.
E uma delas
Estrangulava uma sereia
por denúncia de pesadelo." -
José Gomes Ferreira
(Mais info
aqui)
JRP
É tanto
o orgulho em ser da Sé...
Vinte e nove anos depois, detive-me em frente ao Terço.
Num ápice, senti a minha vida acelerar, da Batalha para a Chã, rua abaixo sem parar. Passou por mim a voar, tropeçou no empedrado difícil de Cimo de Vila e desapareceu na curva de quem vai para São Bento.
Se ao menos tivesse parado por ali uma vez que fosse...
JRP
Fonte de São Domingos.

Fotografia tirada ontem no Jardim dos SMAS
A pedido de alguns leitores do
Avenida dos Aliados, aqui está uma fotografia do medalhão com as armas da cidade, referido no
post anterior, que estava na Fonte do Largo de São Domingos.
A Fonte, de 1846, ocupava parte do espaço actualmente preenchido pela centenária
Papelaria Araújo e Sobrinho e recebia água vinda dos mananciais de Paranhos e Salgueiros. Em 1922, a fonte foi desmontada e preservou-se este belo exemplar que a encimava.
A força desta obra é tal que vou sugerir aos restantes aliados que ela fique permanentemente no topo da nossa Avenida. Seguramente, a protecção da Senhora da Vandoma e a fidelidade do coração de D. Pedro IV serão boa companhia.
JRP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.