Avenida dos Aliados
Crescente.
A noite vai calma e serena. Os aromas quentes e apaladados do Sul começam a invadir a Invicta, como o fazem todos os anos a partir de Maio. Agora, o Mediterrâneo parece logo ali, ao dobrar da esquina.
Assim, procuro um refúgio, local de sombras e mistérios, que os jardins do Porto me vão oferecendo. A Praça Sá Carneiro, antiga Praça Velasquez, ainda mantém no seu jardim em Crescente, decalcamento feliz da britânica e termal cidade de Bath, os encantos e segredos que outros jardins do Porto têm perdido. Estas árvores, que hoje de madrugada fotografei, eram as minhas balizas dos jogos de Domingo à tarde com o meu pai, depois do café no "Bom Dia". O pó, que lentamente cai com os segundos de um relógio antigo, dentro de um armário de madeira, cobre as cassetes que registam os filmes do meu Tio Jorge, em Super 8, onde eu, verdadeiro Lance Armstrong em potência, iniciava uma possível carreira no mundo velocipédico. Não se veio a confirmar...
Na minha memória, com a mesma cor desbotada e a mesma trôpega cadência das imagens, habitam alguns dos espaços verdes recentemente perdidos do Porto.
É por isso que, nunca esquecendo o que fizeram à Cordoaria, devemos estar vigilantes e atentos às manobras que, também elas ocultas e pouco transparentes, se vão fazendo na esventrada Rotunda da Boavista. Prevê-se o pior.
JRP
Lembrar os nossos. (5)
Já que no
post anterior fui percorrendo os caminhos próximos mas confusos entre a Terra e a Pátria, não resisto a recordar mais uma frase sobre a "nossa" cidade:
"
Nasci no Porto. A cidade, os seus arredores, as praias próximas, descendo para o Sul, permanecem para mim a pátria dentro da pátria, a Terra materna, o lugar primordial que me funda". -
Sophia de Mello Breyner Andersen
É mesmo uma sensação inexplicavelmente fecunda quando conseguimos encontrar alguém que, através de um talento e uma sensibilidade intermináveis, consegue exprimir em palavras o que sentimos na alma.
JRP
Oriental, Terra Patrum...
No livro
Uma Família Inglesa, Júlio Dinis escreve que "
o bairro central é o portuense, propriamente dito; o oriental, o brasileiro; o ocidental, o inglês".
Dinis referia-se às 3 faces que o Porto oitocentista começava a desvendar, com os bairros periféricos a associarem-se à implantação britânica, no caminho para a Foz, no que se refere ao Ocidental, e à presença dos regressados brasileiros que pintavam a Nascente da Invicta com os seus azulejos de um colorido baço.
Eu sempre fui mais oriental. Os meus caminhos pelo Porto, sobretudo na minha infância, foram feitos nas ilhas de São Victor, com os lanches na minha avó, e nos percursos a pé por São Lázaro e Poveiros em direcção a Santa Catarina. Foi nas arborizadas Ruas Novas (Barão de São Cosme, Duque da Terceira, Duque de Saldanha,...), como ainda lhes chama o meu avô, apesar destas serem de finais do século de oitocentos, que fui caminhando em direcção ao café tardio de Domingo vespertino, pela mão dos meus pais, parando, por vezes, no urinol de ferro do Largo de Soares dos Reis, obsessão natural de uma criança encantada pela diferença e pelo pitoresco.
O cemitério era logo ali, presença constante e vigilante, pela qual ainda me atemorizo, e que, a meu ver, funciona como os olhos do anúncio do Doutor T.J. Eckleburg, na obra maior de Scott Fitzgerald,
O Grande Gatsby, que, no topo da colina junto a West Egg, simbolizavam a própria justiça divina que, apesar de cega, tudo vê.
Jamais me esquecerei de em tempos ter lido, numa edição da década de 40 da revista
O Tripeiro, alguém que se referia ao seu baptizado na Igreja do Bonfim. Esse antigo leitor, por estes dias seguramente en
terrado no cemitério do Prado do Repouso, recordava o facto de o acontecimento ter ocorrido na antiga Igreja, que, no final do século XIX, foi substituída pela actual. A Igreja que o leitor de
O Tripeiro mencionava é a que está na imagem acima, no topo do Monte de Godim, ao cimo da Rua do Bonfim, tal como era em meados do século XIX. Depois de quase toda a minha família ter lá casado, também eu fui baptizado no Bonfim, mas obviamente na Igreja actual. Bem lá no fundo, onde a alma é curva, sei que há um rastilho de orgulho em saber que um dia, que espero bem longínquo, eu possa novamente acompanhar o caminho do antigo leitor de
O Tripeiro.
JRP
Já só falta um mês
para o início do Euro 2004.
E o arranque é no Porto, no Estádio do Dragão.
JRP
Hoje é a Véspera
do 13 de Maio, dia de aparições e outras joelhadas no asfalto. Vamos salvar a semana com uma boa promessa, a estreia do
Milagre Segundo Salomé, filme de Mário Barroso, adaptado do romance homónimo de
José Rodrigues Miguéis.
E por falar em Miguéis, apetece-me:
“
Em terra de cegos, quem tem um olho o melhor é vazá-lo.”
MBP
Insanidade.
Definitivamente, o país está à beira da loucura.
Depois das
brincadeiras do
Ministério da Educação no concurso para os professores que acabaram com a anulação dos mesmos, do "entra e sai" da prisão no escândalo
Casa Pia, das declarações insanas do Dias da Cunha, das capas obsessivamente anti-Porto (cidade e clube) do
Expresso, e de, ontem, o sargentão seleccionador nacional ter revelado, ao
JN, não se lembrar de quando foi o último jogo que viu do
Futebol Clube do Porto, reclama-se imediatamente uma camisa-de-forças do tamanho de Portugal.
Ainda por cima, o futuro não parece risonho. Aliás, tudo indica que o nosso estado mental só pode piorar: hoje, a
RTP transmite o Festival da Eurovisão da Canção. Assim, não há salvação possível...
JRP
As Jóias da Castafiore.
Volto a utilizar a última vinheta de um álbum como uma das minhas preferidas. E a escolha foi difícil... em
As Jóias da Castafiore os desenhos de Hergé são quase todos simbólicos: o olhar de Haddock pelo espelho, em direcção à cantora italiana, a colocação dos ciganos nos jardins do palácio, a investigação de Tintin no sótão de Moulinsart ou as lágrimas generalizadas no fim do visionamento da televisão do professor Girassol (lágrimas essas que determinados autores acreditam serem ainda consequência da última vinheta do álbum anterior,
Tintin no Tibete, que curiosamente abordei no último
post sobre o Tintin).
A vinheta é, tal como a anterior, pouco ortodoxa. Não é oval, ainda que as referências ao ovo sejam permanentes ao longo do livro (afinal, a própria jóia é uma gema de esmeralda oval), mas rectangularmente rodeada por pássaros.
Um mocho, uma pêga e um papagaio juntos. A presença dos pássaros na obra de Hergé é transversal. Não há qualquer álbum em que eles não apareçam. Na verdade, os pássaros aparecem, por vezes, como contorno fundamental da trama: os irmãos
Pardal, no
Segredo do Licorne, ou o
Pelicano do
Ceptro de Ottokar, entre muitos outros. Estes três, contudo, já não são novidade para os leitores. Papagaios são presença constante ao longo da série, evocando quase sempre os antepassados de Haddock, através da repetição dos impropérios: "raios e trovões" ou "com mil milhões de macacos" (não será o Yeti, do último
post, também um grande macaco?). A pêga já havia aparecido na
Ilha Negra onde, à imagem do
As Jóias da Castafiore, pratica um roubo que ajuda ao desenvolvimento da história... curiosamente a ária, que Castafiore vai interpretar a Milão, dá pelo nome de "
La Gazza Ladra". E finalmente o mocho, que habita no sótão, local privilegiado de memórias, mistérios e segredos.
São três pássaros como eram três Licornes que deviam estar "
unydos". Mas foi no quarto degrau que Haddock tropeçou como era a quarta a dinastia Ottokar.
Não me vou perder em simbologias e numerologias, mas podem acreditar que apenas comecei a desenrolar o novelo pela ponta.
Para mim, longe de conjecturar qualquer lógica mais complexa enquanto criança, esta vinheta representava sempre uma boa gargalhada e, em dias mais cinzentos, o valor da amizade e da lealdade. Obrigado, Tintin e Nestor, por me terem sempre amparado nas quedas.
JRP
Post It!
Ele chama-nos simpáticos (e, por acaso, até somos...), correctos (vamos tentando), falíveis porque humanos (incontornavelmente), misteriosos (ainda bem!) e obsessivos (permanentemente). Falo de
Ricardo Salazar do blog
Via Rápida, o melhor anfitrião da blogosfera. Ele vai estar como DJ no
Café na Praça, no dia 21 de Maio, sexta-feira, pelas 23h00, na festa "
Retro Electro For the K.K.Kids", provavelmente comemorando o aniversário da vitória em Sevilha. O
Café na Praça fica no Clérigos Shopping, antiga Praça de Lisboa, mesmo junto à Torre protagonista do
post anterior. Já agora,
Ricardo, como não gostamos só de Waterboys, não te esqueças de pôr a "
This Charming Man" de Manchester. É que o Homem está de volta!
O
Avenida dos Aliados sugere ainda uma visita ao Inatel, no Porto, onde decorre uma exposição de pintura de outro amigo talentoso, o pintor
Rui Tavares. Dêem lá um salto, entre as 9h30 e as 17h30, e não darão o tempo por perdido. Jamais me esquecerei da instalação que montaste,
Rui, na Casa do Alto, na Maia. A atmosfera fantasmagórica, auxiliada pelo trecho da música
Pornography dos inultrapassáveis "
The Cure", e as páginas rasgadas dos livros da minha vida, tornaram a experiência inesquecível. O
Avenida dos Aliados marcará, obviamente, presença na Casa Jorge de Sena, delegação do Inatel, na Rua do Bonjardim, no Porto.
JRP
Lenta escadaria.
Fotografia tirada por mim, hoje, às 02 horas e 13 minutos.
Os morros da Pena Ventosa e da Vitória aconchegam a Praça da Ribeira, justificando a origem do "
Porto d'Abrigo".
Após breve ausência no Sul, ela recebe-me assim... De onde estou, a cidade à minha frente afigura-se-me como uma lenta escadaria para o céu, terminando em caracol. De uma forma adocicada, a silhueta revela-me o caminho para o destino. Ecoam na minha mente as palavras de
Jorge de Sena: "
Para a minha alma eu queria uma torre como esta". Lá em cima, se eu me esticar bem alto, sentirei seguramente as abas de um véu. E dali, debaixo das estrelas, eu vejo o mar.
JRP
Inquiridores Mores
Segundo
este artigo, o governo de Washington terá aprovado, em Abril de 2003, um conjunto de técnicas de tortura a aplicar nos prisioneiros do campo de concentração da Baía de Guantanamo. Contudo, é de realçar que tanto o
Pentágono, como o
Departamento de Justiça dos EUA mostraram ser organizações conscienciosas, pois recomendam que as torturas devam ser feitas sempre na presença de um médico. Penso que este pormenor de cinismo terá sido inspirado na velha relação estabelecida entre a medicina e o sacerdócio.
Apesar de tudo, sinto que a tortura maior é saber que deixamos o mundo ao cuidado dessas mãos.
MBP
Do Porto, pelo Porto, para o Mundo.