Tragédia barroca.

O eixo 31 de Janeiro/Clérigos num final de tarde de Agosto de 2003, imensamente perdido entre a poluição e o isolamento.
Da minha varanda preferida, descubro o dramatismo barroco dos Clérigos e sinto-me parte integrante da lógica que presidiu à construção deste espaço, no final do século XVIII.
Do topo de cada vertente, duas igrejas setecentistas se enfrentam, num louco confronto de titãs, dramatizado pela rectilínea extensão abrupta dos arruamentos que as precedem, como um longo véu de uma noiva que abandona irada o altar.
Daqui, observo, ao mesmo tempo, a gloriosa
Araucaria bidwillii, que cresce assustadoramente no empedrado Jardim da Cordoaria, uma espécie de árvore monstruosamente antropomórfica que um dia engolirá a própria torre.
A cidade apita, sussurra, grita e silencia por entre as primeiras luzes do anoitecer, enquanto desço a lateral escadaria longa de Santo Ildefonso, encurtada pelo voraz apetite do tempo e do dinheiro.
No meu longo caminho rua abaixo, passo lento junto a uma mulher larga que chora emocionada, apoiada pela criança que a segura nos braços e lhe pede calma. Mais à frente, um homem cinquentão ampara pelos ombros a mulher inválida com quem um dia, há muito tempo, validamente se casou. No mesmo instante, uma outra criança morena brinca aos castelos de areia na praia da Luz, com um punhado de grãos molhados na mão direita que deixa pingar lentamente sobre o areal, criando uma espécie de estalagmite gigante e esbelta, decorada por conchas e vieiras.
Ao levantar de novo os meus próprios olhos, na descida escarpada do caminho, entendo finalmente que o barroco do Porto é assim, uma linha recta feita pela lágrima, entre o olho e o colo, do princípio ao fim da rua, num percurso feito de curvas entre o nascimento e a morte, da volta e da confusão, nas fachadas graníticas das Igrejas do Porto.
Descer 31 de Janeiro é, para mim, uma tragédia barroca, sempre perto de marejar intensamente os olhos e de perceber enfim a linha aparentemente recta da minha vida absurdamente curva.
JRP