O Porto e a República.

A Praça de D. Pedro, actual Praça da Liberdade, aquando do anúncio da implantação da República, em 1910.
Assim se vestiu a Praça há 94 anos, quando pelo Porto ecoaram finalmente as notícias da queda da Monarquia e da implantação da República.
Ali mesmo onde estamos, se haviam travado combates urbanos intensos cerca de 19 anos antes, aquando da pioneira Revolução de 31 de Janeiro de 1891, numa séria tentativa de implantar a senhora dos seios desnudados no país.
A tragédia acabou por surgir logo ali, no dobrar da esquina, na então
Rua de Santo António, através do encurralamento dos rebeldes republicanos pelas forças monárquicas, terminando tudo num enorme banho de sangue. Contudo, o Ultimato Britânico de 1890 e, sobretudo, a profunda crise económica e financeira e a forte descrença nos governantes conduziram incontornavelmente ao desabrochar da República a 5 de Outubro de 1910.
No Porto, a Praça encheu-se. A população acotovelou-se junto ao majestoso edifício da Câmara, ao fundo na imagem, sob o olhar atento da
estátua ao Porto, que encimava o referido edifício.
Era assim, nas costas de D. Pedro IV, que era proclamada a República no Porto, ele que seria uma das vítimas de tal destino, já que o rei liberal viu desaparecer o seu nome da toponímia portuense. Até então, o rei-soldado era evocado numa praça e numa rua. Após este dia, não só a Praça mudou para Liberdade como o antigo arruamento, entretanto demolido com a abertura da Avenida dos Aliados, passou a designar-se de Elias Garcia, destronando o antigo topónimo de Rua de D. Pedro.
A referida rua está tapada na imagem pela árvore de dimensões assinaláveis que vicejava em frente ao antigo
café Suíço, onde os portuenses discutiam acaloradamente a importante notícia que circulava eufórica na cidade. Dali, descia, naquele momento, por entre o turbilhão da multidão, um jovem eléctrico em direcção ao antigo Palácio de Cristal, preparando a curva para subir os Clérigos. Nesta altura, a placa central ainda era quadrada, e o rei,
sozinho no seu cavalo, ainda não tinha que partilhar a sua antiga praça com as mãos cheias de automóveis que diariamente ocupam o lugar. Ao longo do século XX, a Praça foi definhando e, de centro económico, social, político administrativo e simbólico, passou a placa giratória de trânsito, cruzada apenas pela população na pressa de um café ou de picar o ponto no emprego.
O rei, contudo, manteve-se firme enfrentando o Sul e liderando o Porto, ainda que algumas
mentes brilhantes o quisessem afastar do lugar (e até, espantem-se, virá-lo ao contrário!), retirando-lhe a austral iluminação solar e a carga histórica de afrontamento ao absolutismo lisboeta, onde está desde 1866 ao leme da Invicta cidade, como ele próprio epitetou.
Não merecerá o rei, que doou o seu coração à cidade, o seu nome na toponímia portuense?
JRP