Europeísmo e Progressismo.

As ruínas do Convento de Monchique sob o olhar atento do bairro Inês, da Rua da Restauração e dos Jardins do Palácio de Cristal, vistos por nós na passada tarde de sábado.
O ambiente mediterrânico proporcionado pelas cinco Palmeiras-do-México,
Washingtonia robusta, das sete que perfazem o conjunto do Palácio de Cristal, é esticado pelos seus portes altivos e emproados que, lá do alto, vigiam toda a cidade. Sob os seus olhares atentos, vão competentemente controlando o movimento rápido das máquinas na Rua da Restauração, que corta em queda abrupta a vertente, o solarengo e distraído Bairro Inês, memória dos bairros operários de outros tempos, e as ruínas abandonadas do Convento da Madre de Deus de Monchique, onde, de forma desafiadora, me infiltrei repticiamente, através da única parte recuperada do edifício.
Nas quatro paredes que sustentam as ruínas do antigo convento habitam ainda soturnos fantasmas femininos, incrustados nos vestígios de nichos e altares que ainda são visíveis nas calamitosas paredes.
Monchique é topónimo antigo, anterior mesmo à nacionalidade portuguesa, e lembrará possivelmente, tal qual o
Montjuic catalão, o antigo Monte dos Judeus, a Norte de Miragaia. A comunidade judaica transitou dali, na mudança do século XIV para o século XV, para a Judiaria do Olival sob as ordens de D. João I, abandonando, entre outras edificações, a sua Sinagoga que estaria aqui mesmo, onde me coloco, no lugar onde foi, no século XVI, construído o convento das franciscanas, à imagem do convento de São Bento da Vitória, também ele substituindo a Sinagoga do Olival, após a expulsão definida por D. Manuel I.
O vento que passa alto, numa versão moderada de jet stream, abana as vigilantes Palmeiras-do-México, criando a sensação de reprovação pelo estado marginal a que um edifício como este foi votado. Aqui esteve, por exemplo, uma capela riquíssima em talha dourada, rival da de São Francisco e Santa Clara, e viveram sob a protecção destas paredes um número assinalável de freiras ao longo dos séculos, muitas vezes em situação miserável, pelo menos até ao Cerco do Porto. Após a vitória liberal, e ainda que estas tivessem sempre manifestado o seu apoio à rainha, foram desterradas para o feminino convento de São Bento de Avé-Maria.
Aqui em Monchique, neste ameaçador e sinistro convento, onde ainda hoje um alpendre gigantesco e a imagem enorme de uma santa arrepiam quem por ali passa de noite, Camilo imaginou o desfiar da trama de Amor de Perdição. O peculiar escritor, nascido em Lisboa mas assumidamente Tripeiro, escreveria as seguintes palavras no seu conto
A Sereia, referindo-se ao espírito e mentalidade do Porto:
"De facto, nós os portuenses, em que pês a nossos detractores, já somos europeus há muito mais tempo do que geralmente se cuida. Há quase um século, já os nossos antepassados conheciam a bernarda patriótica e a ópera italiana; duas coisas sem as quais não há europeísmo, nem progressismo possível." - Camilo Castelo Branco, A Sereia, 1865.
Infelizmente, a visão realista desta edílica paisagem, mostra-nos que o progressismo do Bairro Inês e o Europeísmo dos Jardins do Palácio de Cristal são pequenos traços desse passado, enegrecido pela atitude miserável de país do Terceiro Mundo perante a memória e o património cultural, religioso e simbólico como o Convento da Madre de Deus de Monchique. Parece-me a altura certa para aplicar a velha expressão:
Isto é tudo de uma Pobreza Franciscana…
JRP