Algures onde nunca viajei.

O Porto e o Douro no princípio da década de 70 do século XIX.
Podem não acreditar mas com frequência sonho, durante a noite, em visitá-lo noutra era.
Às vezes, quando acordo, recordo sonhos inteiros da noite passada em que deambulo sozinho pela cidade de outros tempos. Jamais me esquecerei de um sonho trepidante em que passei junto à demolida
Capela de Nossa Senhora da Batalha e penetrei para lá das Portas de Cimo de Vila, rumo ao Arco da Vandoma, num espaço intra-muralhas carregado de negrume e mistério ao bom jeito das arrepiantes séries inglesas de
Sherlock Holmes ou
Jack, o Estripador.
Por isso, hoje, antes de me deitar, preparo meticulosamente a noite de sono que se aproxima e coloco no
Avenida dos Aliados esta pérola do fotógrafo Domingos Alvão, desvendando o Porto oitocentista na sua versão mais ribeirinha.
Tanto mudou desde então. O apetite voraz da transformação urbana no século XX, tantas vezes exagerado e escusado, percebe-se sobretudo na ausência das pontes, actual imagem de marca da cidade, passados cerca de 140 anos. Mesmo a
Ponte Maria Pia, de 1877, a mais antiga das que resistem, é vaga notada, lá ao fundo
onde o Rio faz a curva.
O único abraço entre Porto e Gaia era, nesta altura, a longínqua Ponte Pênsil que delgadamente assegurava a transição entre as duas margens. Desta perspectiva, vejo o antigo Quarteirão dos Banhos, mesmo aqui na primeira curva, também ele devorado pelas transformações ocorridas com a construção do majestoso edifício da Alfândega e pelo acesso do comboio a partir de Campanhã, numa linha entretanto abandonadamente desactivada.
O ambiente enigmático e nebuloso é acentuado pelo número impressionante de barcos no Douro, auto-estrada privilegiada de outros tempos, sobretudo até à construção do dinâmico Porto de Leixões, na última década da centúria de oitocentos.
Lá ao fundo, no meu último piscar de olhos antes de me deitar, observo o antigo Seminário, em ruínas desde as Guerras Liberais, que hoje é sede do mítico Colégio dos Órfãos, que, no final daquele século, ali se viria a instalar após a saída da Cordoaria. O seu aspecto lúgubre, tenebroso e
sinistro permanece eterno aos nossos olhos, nas nossas palavras e nos nossos espíritos.
Enquanto olho para a cama aberta do meu quarto temo, em vez de um sonho, ter preparado um pesadelo...
JRP