Aere perennius
A propósito de um dos
enigmas da Avenida, alguns leitores, como
Lino Gomes e João Medina, mostraram interesse em ler um pouco mais sobre a estátua equestre de D. Pedro IV e, muito especificamente, sobre os escudos que decoram as vertentes N e S do pedestal.
Essa emblemática estátua foi fundida em Bruxelas, por volta de 1860, pelo escultor francês Calmels e custou cerca de 30 contos de réis (30.000$000 réis), uma pequena fortuna para a época, tendo em conta que o rendimento mensal médio de um operário não atingiria os 6$000 réis. Grande parte destes custos foram pagos através de subscrição pública, pela burguesia da cidade, o que revela bem o poder económico do Porto, em meados do século XIX.
O motivo principal para a encomenda do monumento foi a celebração do trigésimo aniversário do
desembarque liberal. Assim, no Verão de 1862 foi colocada em plena Praça Nova (depois Praça de D. Pedro e hoje Praça da Liberdade) a primeira pedra do pedestal. Contudo, a estátua só seria inaugurada em 1866, mais precisamente no dia 19 de Outubro, com a presença do rei D. Luís, neto do próprio D. Pedro IV.
O escudo frontal é igual à réplica que lá se encontra hoje, ou seja, representa as armas nacionais em escudo francês, muito ao gosto da época, coroadas por uma coroa ducal encimada por um dragão com as duas asas abertas. É verdade que a coroa foi partida e retirada durante uns tempos, mas por volta de 2001 foi recolocada, o problema é que desde então alguém teve a ideia acidental de partir o pescoço e a asa esquerda ao dragão...

Estátua equestre de D. Pedro IV, cerca de 1890
Nesta fotografia, podemos ver que os painéis do pedestal, esculpidos por Joaquim Antunes da Silva, são ainda em mármore. Mais tarde, seriam substituídos pelos actuais, em bronze.
Apesar de D. Pedro continuar igual a si, orgulhoso no seu uniforme de Caçadores Nº.5, entregando a Carta Constitucional ao Porto e ao país, o plano de fundo da praça é outro. Lá podemos ver a entrada para o velho Café Camanho, vizinho e sucessor dos ancestrais Suíço e Guichard, onde Alexandre Braga e Soares de Passos, Camilo e até Garrett passaram horas, se não dias, mastigando literatices menores e grandes literaturas, misturadas com ginjas de trago menos doce, anunciando certamente a tísica.
Sobre a estátua, ergue-se a torre e parte do telhado dos Congregados.

Estátua equestre de D. Pedro IV, Setembro de 2004
E nestes 100 anos, enquanto deixamos os fantasmas dos nossos autores a tertuliar pelo Guichard em torno da perenidade do bronze, houve um mundo inteiro que desabou e outro que se construiu. Nota-se que o dragão já não tem cabeça e o Camanho também já lá não está. No seu lugar ergueu-se o Imperial, hoje em dia meio atarantado pela velocidade que atravessa os seus vitrais
Art Deco.
MBP