Angústia.

A Ponte Maria Pia sobre o Douro, vista por mim, a partir de Gaia, na passada semana.
O tempo cinzento que me protegeu quando tirei esta fotografia, acompanha o destino da centenária peça que está à minha frente. Basta-me dar uns passos em frente e choco com o portão, versão tripeira do muro de Berlin, que me impede de circular sobre a ponte Dona Maria.
Não deixa de ser irónico! O Rio que deveria unir, separa os dois municípios. A ponte que deveria abraçar, desirmana as duas cidades.
Foi em 1877 que o primeiro comboio por aqui passou. Se me silenciar e prestar atenção, o eco da sua passagem faz ricochete no colégio dos Órfãos, pálido lá no fundo, e regressa à velocidade de um raio, penetrando silenciosamente no meu ouvido duro. Nessa altura, na década de 70 da centúria de oitocentos, Eiffel ainda não tinha produzido a Torre, que só surge cerca de 12 anos depois.
Passados cerca de cento e vinte e sete anos, a torre Eiffel é um dos monumentos mais procurados do planeta, uma fonte gigantesca de receitas e um passaporte seguro para a chegada de turistas. A nossa ponte, passado o mesmo tempo, é inexplicavelmente um empecilho dispendioso, segundo os que nos dirigem, e mesmo a sua fama, granjeada à custa da sua idade e sobretudo da assinatura de quem a concebeu, é-lhe tantas vezes roubada em detrimento da ponte Luís I, de Teófilo Seyrig.
O Porto Oriental é tantas vezes assim. Esquecido, incompreendido, desvalorizado injustamente. Aqui temos nós uma peça valiosíssima, com a assinatura de um nome de importância mundial, exemplo em estudos internacionais da arquitectura do ferro, e, por aqui, nem serve de atracção turística, nem de apoio à circulação ou ao serviço da cidade. Se não é possível outra adaptação (Metro ou automóvel), porque não fazer uma via de circulação de peões e bicicletas?
As verdes ervas daninhas e restantes formações vegetais mais ou menos dignas que crescem à minha frente sorriem e aplaudem o esquecimento da ponte. Elas são seguramente as únicas beneficiadas de tal descuido, fruto da marginalização que o espaço leste da cidade tem sofrido ao longo dos anos.
JRP