Escadaria.

Edifício da Câmara Municipal do Porto, fotografado por Bomfim Barreiros, por volta de 1950.
Tenho assistido, com bastante interesse e alguma preocupação, à discussão que se tem verificado em torno das possíveis transformações na Avenida dos Aliados, na Praça General Humberto Delgado e na Praça da Liberdade, por essa blogosfera fora, em particular no sempre interessante blog
A Baixa do Porto e no
JN, através das palavras sábias de Jorge Vilas.
Admito que tenho algumas dificuldades em entender certas propostas, sobretudo tendo em conta os interesses económicos da Baixa e o seu percurso histórico, base sobre a qual qualquer estudo ou projecto deve, na minha opinião, incontornavelmente partir. Para isso e assumindo algum pretensiosismo, aconselho a leitura do livro "
A Ponte e a Avenida, contradições urbanísticas no centro histórico do Porto", editado pela
CMP, em 2001. Digo isto porque me parece que muitas das propostas e ideias não assentam em estudos prévios, em lógicas e dinâmicas estudadas, nem em raciocínios apresentados num passado pouco longínquo, mas em decisões espontâneas, sem ideia de conjunto e com alguma sobranceria que a discussão pública deste tema tem aligeirado.
Esta questão do uso da história pode parecer antiquada, anacrónica e até impeditiva da transformação e do progresso mas aconselho a todos que assim pensam que imaginem um médico a fazer uma operação profunda a um doente, desconhecendo por absoluto o seu passado clínico, possíveis doenças ou más reacções a determinadas substâncias...
Creio, de facto, que este desrespeito pelos homens que construíram, ao longo dos anos, o Porto, à custa de muitos projectos e estudos, é parte do problema. Nós, por aqui, nesta
Avenida dos Aliados, temos tentado contribuir para que essa leitura do passado não seja olvidada como já o fizemos
aqui ou
aqui, entre tantas outras vezes, para este espaço central da nossa cidade.
Por isso, hoje, tentamos novamente ser úteis à discussão, apresentando uma fotografia de parte da Avenida nos seus primórdios. A fotografia ensina-nos a primeira versão do edifício da Câmara Municipal do Porto, cuja escadaria muitos reclamam que regresse. Tenho lido e ouvido repetidamente essa alusão a esta escadaria, substituída mais tarde pelas rampas de acesso que hoje ornamentam a base da fachada do edifício, sem que tenha visto fotografias ou imagens que ajudem o comum portuense a reconstruir a sua perspectiva passada ou a imaginar o seu aspecto no futuro.
Contudo, a fotografia não remete para a questão principal da discussão que, no meu entender, reside na pedonização da parte Norte da Avenida dos Aliados, Praça General Humberto Delgado. No meu ponto de vista, esta intervenção deveria realizar-se com verdadeira incidência na face oposta da Avenida, na Praça da Liberdade, em que o seu passado de lugar de discussão pública, por onde passaram homens como Camilo, Ortigão ou Junqueiro, entre outros, o seu antigo aspecto formal, de praça dominada pela gigantesca e arborizada placa central, e sua intensa lógica comercial das Ruas de 31 de Janeiro e dos Clérigos, a justificam em absoluto. Será o receio do regresso da antiga Praça Nova que fazia tremer Lisboa?
JRP